27/02/2024

O olhar de Carlão em "Paraíso perdido"

Existe uma alma corsária em Paraíso Perdido, de Monique Gardenberg. Existe um olhar humanista e curioso de Carlão Reichenbach que mede cada personagem, de cima abaixo, e parece satisfeito com o que vê. Não teria feito melhor, ele diria, sentado em uma poltrona do CineSesc e observando a entrada em cena de cada ator interpretando o drama comum de pessoas comuns - o motoboy que é cantor e sonha ser ator; a drag queen que flerta com um professor de inglês e canta canções apaixonadas que cabem muito bem em sua pele ou na pele da persona feminina que representa no palco; o acadêmico que abandonou a vida universitária e abraçou a administração de um cabaré; o cantor abandonado pela mulher, mas que ainda sonha reencontrá-la; a mulher que sai da cadeia depois de cumprir longa pena por assassinato.

Uma pequena cidade habita no cabaré Paraíso Perdido, onde se reúnem almas solitárias no fim de noite e que serve de abrigo para quem busca um pouco de diversão para tornar suas vidas menos pesadas. É um mundo rico de significados que só poderia existir na cabeça de Carlão. Ali estão vários personagens que se parecem muitos com os que criou em Anjos do Arrabalde, Garotas do ABC, Alma Corsária, Falsa Loura. E como nos filmes do paulistano gaúcho, Monique Gardenberg, que os tomou emprestado, os trata com o respeito que merece cada trabalhador.

A Itália perde mais um mestre

 Autor de filmes importantes sobre a Itália do pós-guerra, o napolitano Francesco Rosi morreu hoje, aos 92 anos, e não deixa seguidores. "O Caso Mattei", "As mãos sobre a cidade" e Salvatore Giuliano" são obras-primas de uma corrente cinematográfica que os críticos chamavam de cinema-denúncia. Nisso ele foi mestre, ao mergulhar nas mazelas políticas e sociais da Itália, como a corrupção, a especulação imobiliária, o crime organizado, que também são mazelas em tantos países. Grande perda para o cinema, principalmente para o cinema italiano, que ultimamente anda tão pouco criativo.

Uma viagem no tempo

Uma história de amor e fúria, de Luiz Bolognesi, não faz feio ao ser comparada com produções estrangeiras. Acerta o diretor em mergulhar em fatos da história do Brasil, inclusive o período da ditadura militar, que ainda é citado de forma acanhada pelas produções nacionais. O filme foi realizado com técnicas de animação clássica: os personagens foram desenhados e animados com lápis sobre papel, a partir das emoções oferecidas pela performance dos atores. Selton Mello, Camila Pitanga e Rodrigo Santoro interpretaram o texto em estúdio e posteriormente a equipe do longa utilizou a gravação como referência para seu trabalho, uma técnica que permite resultados mais sutis e expressivos, valorizando o potencial do elenco e dos animadores. Nessa entrevista, produtores e equipe técnica falam como desenvolveram a parte futurística da história.

James, respeite Januário!

Se não fosse pelas belas mulheres, pelos carrões e pela vida charmosa de um agente secreto, a sanfona de Luiz Gonzaga teria falado mais alto, desbancado 007 e liderado a bilheteria brasileira em seu primeiro final de semana da estreia do filme Gonzaga - de pai pra filho, de Breno Silveira. Mesmo assim, meu caro James Bond, respeite Januário. Você pode ser mais famoso, mais sortudo com as mulheres, porém o velho Januário era mais tinhoso. Que o diga o Rei do Baião que voltou para casa botando banca, mas logo foi enquadrado.

Basta assistir à biografia do grande músico brasileiro para saber que de Moscou a Rancharia, de Londres a Bodocó, Januário é o maior. Salve Gonzagão, salve Gonzaguinha. Viva Dominguinhos, Viva Sivuca. Salve Borguetinho. Façam a sanfona gemer.

Woody Allen ainda paira sobre a cidade

A cidade ainda não se recobrou do efeito de Meia-noite em Paris (e isso vale para todas as cidades onde o filme passou) e Woody Allen volta com um novo filme, Para Roma com amor. Como o tempo passa. Um ano. Quatro estações. O diretor nova-iorquino sempre teve uma legião de seguidores fiéis, mas desde Meia-noite em Paris ganhou novos fãs de carteirinha, que agora não querem perder cada nova produção.

Os críticos reconhecem que o filme não supera o anterior em criatividade e humor, mas não deixam de recomendá-lo. Um jornalista de um jornal diário, por exemplo, enumerou uma série de defeitos do filme, dissecou todos os seus problemas. Mas, na nota de avaliação colocou: bom. O leitor mais desatento pode ficar confuso: se o filme tem tantos defeitos, como pode ser bom? Porque é um Woody Allen, ora! Porque nos faz lembrar de outros filmes seus, porque adoramos os lugares que ele mostra, porque saboreamos a trilha musical, porque nos encantamos com suas musas. Porque queremos viver eternamente essa fantasia que ele nos propõe. Era assim com Fellini, cujos filmes também pairavam sobre os espectadores, mesmo depois que as luzes do cinema se acendiam. Por isso corremos para o cinema, para continuar na ilusão que nossos sonhos continuam preservados na sala escura.

Um vigarista iluminado

O falsário brasileiro que tentou abrir conta numa agência bancária no Recife (PE), usando um RG com a foto de Jack Nicholson, virou motivo de piada no mundo inteiro por sua ação desastrada. Pior só se tivesse usado um revólver de sabão num dia de chuva. O jornal americano New York Daily News chamou o brasileiro de “um coringa que precisa de muitos ajudantes para sobreviver no mundo do crime”. Na verdade, o que a imprensa não noticiou - e que vocês podem ver aqui com exclusividade - é que o golpe poderia ter dado certo se o bandido atrapalhado tivesse usado outro RG entre os inúmeros que ele havia preparado como plano B. Agora ele se lamenta por não ter sido iluminado e usado a segunda foto. Como consolo, espera encontrar na cadeia parceiros do nível de Tim Robbins e Morgan Freeman para voltar a ter um sonho de liberdade.

Arte: Robson Lopez

Mamma mia, deram o Oscar pra Margaret Thatcher!

Todos sabem que o Photoshop nas mãos de gente despreparada ou mal intencionada é um perigo. O maquiador de Meryl Streep errou na dose e criou uma personagem que em nada se parece com a Margaret Thatcher real, apelidade de dama de ferro com muita razão.

Não satisfeita com o penteado a la bolo de noiva, a diretora providenciou uma maquiagem ainda mais profunda, na alma e no caráter da personagerm, tornando-a quase uma líder feminista. Só faltou trilha sonora do Abba para que víssemos nas telas uma reedição de Mamma Mia com gaita de fole. Na mesma faixa de pedestre que os Beatles atravessaram, em Abbey Road, Magy passou ao volante de seu trator atropelando todos que encontrou pela frente.

Rafinha nunca será Billy Cristal

Por mais brega que seja a festa do Oscar, alguns apresentadores fazem seu papel com alguma dignidade e até humor. É o caso de Billy Cristal que consegue fazer graça e se divertir ao mesmo tempo. Sabe dosar o humor sem ser grosseiro, se permitindo algumas brincadeiras que até fogem do politicamente correto.

As surpresas de terça-feira

As terças-feiras costumam ser dias de notícias ruins. É quando sai a relação dos filmes mais vistos do fim de semana anterior, apurada pelo Filme B, que o Cineweb destaca na home. É muito raro um bom filme bombar no gosto do público, na semana de abertura. Outro dia foi Agamenon, semana passada foi A filha do mal, e esta semana, Cada um tem a gêmea que merece. Quando vi o filme, tive uma ligeira esperança que ele não faria sucesso. Ele é muito ruim, pensei comigo, as piadas não têm graça. Mas, ingenuidade minha, o filme de Adam Sandler bombou em bilheteria, em venda de pipoca, de refrigerante, de dramin. Só me resta esperar que na próxima terça-feira A Invenção de Hugo Cabret conquiste a simpatia do público. Mas é bem capaz que a versão mulher de Adam Sandler continue dando as cartas.

Cinema e religião

Um ditado antigo ensina que não se deve discutir política, futebol e religião com ninguém. Por serem temas que despertam paixões, o melhor, nos ensinavam nossos pais, é melhor nem tocar no assunto. Mas, nem sempre fui prudente e perdi a conta de quantas vezes quebrei essa regra de ouro, principalmente em se tratando de política e futebol.

Para minha surpresa, descubro que existe um outro tema tabu: o cinema, ou melhor, alguns tipos de filmes sobre os quais você só pode concordar com a voz dos fãs. Não importa que o filme seja ruim, você não pode ousar dizer o contrário: corre o risco de perder o amigo ou de ser insultado se for crítico de cinema.

Na semana passada, uma crítica publicada no Cineweb sobre o filme Star Wars motivou uma avalanche de críticas e ofensas da legião de adoradores do filme. Um dos internautas reconheceu que o filme tinha defeitos, mas isso não era motivo para uma crítica negativa. Ou seja, eu sei que o filme tem problemas, mas não posso colocar o dedo na ferida.

Os fãs de quadrinhos também são implacáveis com os críticos de cinema e não perdoam o "desrespeito" aos autores ou personagens quando as críticas são negativas. Eu também fui fã de Superman quando tinha 13 anos, mas sabia que era tudo mentirinha. As melhores aventuras eu vivia diariamente na rua jogando futebol, empinando pipa, rodando pião, sotando balão (uma atividade altamente perigosa, como se reconhece hoje, quase terrorista).

Portanto amigos internautas, não levem tudo tão a ferro e fogo. Como dizia Lobão (o cantor e compositor, não o perseguidor dos 3 Porquinhos), "cinema é só ilusão".

70 anos de Ali, uma luta, um livro e um filme

O boxe é um esporte curioso.  A primeira imagem que fica é a de que o esporte é violento, presenciado por sádicos. Também tinha essa impressão. Nunca gostei de lutas violentas, quando o risco enfrentado por um dos pugilistas é evidente. Não gosto de ver um homem ser humilhado, jogado ao chão como um animal abatido. Mas não deixo de torcer, mesmo contra toda a lógica do esporte, para o lutador mais franzino, mais desajeitado, com o calção mais feio e rosto mais desesperado. Muito raramente eles ganham, mas pelo menos tentaram.

Um que nunca deixou de tentar, mesmo quando suas chances eram mínimas, é Muhammad Ali, batizado com o nome de um guarda pretoriano romano (Cassius), que completa hoje 70 anos. O documentário Quando éramos reis, de 1974, registra a histórica luta contra George Foreman, no Zaire. Lá estava também o escritor Norman Mailer, que acompanhou os bastidores e escreveu A luta, um livro-reportagem sobre o combate.

Ali chegou ao Zaire derrotado e saiu de lá coroado. Ele debochou do oponente, mais forte que ele, desde que chegou à África. Dizia que venceria Foreman porque era mais jovem e mais bonito. No ringue, ele pedia para Foreman bater. Foreman batia enfurecido, disposto a acabar com o arrogante. Quanto mais batia, mais Ali ria. Parecia inabalável. Ali apanhava, mas também fugia graças a seu jogo de pernas. Foreman bateu tanto que cansou. Então Ali começou a lutar. E o resto é história. Foreman perdeu para si próprio, para o seu talento, para a sua força física. Ali ganhou, como ele disse, porque era bonito.

Hemingway, fã de boxe, também adorava emoções fortes. Sem o jogo de pernas de Ali, foi a nocaute no meio do combate.