27/02/2024

Dona Lindu ajuda diretor de “Avós”

Avós, do uruguaio Michael Wahrmann, que vive no Brasil desde 2004, é até agora o único curta brasileiro selecionado para o Festival de Berlim. Wahrmann não escondia sua felicidade ontem à noite ao mostrar o filme no Espaço Unibanco para uma concorrida platéia de convidados, equipe técnica e elenco do filme. Casado com uma brasileira e falando ainda com um pouco de sotaque, ele não escondia sua felicidade em mostrar o trabalho concluído. Filmado em Super 8 e premiado num festival de Curitiba, ele revelou que poucos acreditaram em seu projeto. Disse que até foi desencorajado por outros cineastas, que não viram na singela história que pretendia contar, elementos para um filme de verdade. Sem homenzinhos azuis e de rabo no elenco, ele só queria recriar uma pequena história de sua infância, vivida numa família judaica. Ou, mais resumidamente, uma festa de aniversário em família.
 
Mas o diretor, que estuda cinema em São Paulo, seguiu o conselho da mãe do presidente Lula, mesmo sem conhecê-la: ele teimou. Embarcou seu reduzido elenco em um pau-de-arara sentimental e concluiu o filme, que viajará de avião para  Berlim.
 
Avós é um filme singelo que conta uma história simples, aparentemente banal, mas que faz parte das memórias de uma criança. O trabalho do operador da câmera é criativo, pois a história está sendo contada por uma criança que parece estar registrando cenas domésticas no dia de seu aniversário. Além de tudo, o filme é temperado com boas pitadas de humor judaico. A montagem é de Luara Oliveira, que já “montou” muitas críticas de cinema no Cineweb antes de ir para Cuba, de onde voltou apaixonada por edição de imagens e com uma caixa de Cohiba, que me presenteou e já está quase no fim.

A viagem de Saramago

Acaba de ser publicada em Portugal Biografia - José Saramago, de João Marques Lopes, que analisa em profundidade a vida e a obra do escritor português, Prêmio Nobel de Literatura. Escrito a partir de pesquisas e entrevistas com pessoas próximas a Saramago (o escritor não respondeu aos pedidos de entrevista), Marques Lopes diz que seu livro é o primeiro a analisar a obra completa do escritor.
 
 Ao traçar o percurso de Saramago, o autor lembra, além dos romances, as crônicas no “Jornal do Fundão” e na “Capital” , a crítica literária na revista “Seara Nova” e os editoriais que escrevia para o jornal  “Diário de Lisboa” .

Segundo o jornal "Público", a biografia debruça-se principalmente sobre o mundo e as personagens dos livros de Saramago e "a realidade política que moldou o militante para além do escritor". Saramago, como Jean-Paul Sartre, afirma Marques Lopes,  são "intelectuais totais", mas com uma diferença: Saramago, ao contrário de Sartre, partiu do nada, como a impossibilidade de realizar um curso superior ou a necessidade, já referida em Os Cadernos de Lanzarote, de ir à Sopa dos Pobres.

 João Marques Lopes revela episódios menos conhecidos de Saramago, como a recusa de uma oferta milionária para a adaptação de O Memorial do Convento para o cinema.
 

Tudo começa pelo título

Já escrevi várias histórias a partir de um título: ou a imagem me agradava ou o som das palavras me provocava. O que faltava era escrever a história. Era como um trabalho feito por encomenda, só que quem fazia e entregava o produto era eu próprio. Talvez os anos de trabalho como jornalista tenham me ensinado a ser persistente e não desistir de uma ideia; ou a empurrar o problema com a barriga até encontrar a melhor solução. Mas, em todos os casos, nunca deixei de encarar o desafio e iniciar o trabalho na hora mais adequada. Quase nunca cumpri os prazos estipulados, mas sempre soube perceber as margens de manobra de que dispunha. Era como andar na corda bamba, equilibrando o corpo ora para a direita, ora para a esquerda, em busca de um equilíbrio que, no final da travessia, me manteria vivo e no ponto em que queria chegar.

O título de meu primeiro conto surgiu de uma imagem bem humorada. A primeira providência foi escrevê-lo num caderno no qual eu desenvolveria a história (como ensinam os professores de escrita criativa).  Não precisei do caderno, pois nunca esqueci o título. Somente anos depois, sentado num vagão do metrô, comecei a escrever a história num bloco de anotações. Prossegui tempos depois em outro bloco e fui ficando com pedaços da história em cadernos diferentes, disputando as folhas limpas com as anotações que fazia para minhas reportagens. Às vezes escrevia à noite, em casa, antes de dormir, e retomava o trabalho no dia seguinte. Demorei a encontrar o fecho, porque queria que fosse bem humorado e elegante.

Só depois de concluída a primeira versão, levei tudo para o computador e comecei a martelar a pedra. Perdi a conta das versões que fiz, sempre em torno da mesma história e dos mesmos personagens. Quando coloquei o ponto final e decidi encerrar as versões e revisões havia se passado sete anos. Era um texto curto, enxuto, de duas páginas, em word, times new roman, corpo 12. Estatisticamente, devo ter escrito, em média, dez linhas por ano. Jack London se obrigava a escrever mil palavras por dia, independentemente de seu estado de ânimo ou de embriaguês. Mesmo sóbrio, sempre fui uma tartaruga perto do americano, bêbado