20/02/2024

Premiado “Máquina do Desejo” resgata a história de Zé Celso e do Teatro Oficina

O diretor Lucas Weglinski fala do processo de produção de um longa feito com imagens de arquivo e de seu trabalho com o dramaturgo, morto no começo de julho



José Celso Martinez Corrêa, figura-central do Teatro Oficina e do documentário Máquina do Desejo (Crédito: Divulgação)

Quem assiste ao premiado documentário Máquina do Desejo percebe que seus diretores e montadores Lucas Weglinski e Joaquim Castro são bem familiarizados com o tema: o Teatro Oficina (SP), a companhia que foi liderada pelo dramaturgo, ator, cineasta José Celso Martinez Corrêa, que morreu no começo deste mês, depois de um incêndio em seu apartamento.

Weglinski e Castro são velhos conhecidos do Teatro Oficina. O primeiro trabalhou em diversas funções – desde ator até assistente de direção, dramaturgo (ao lado de Zé Celso) e diretor executivo. “Eu convivi muito com o Zé Celso. Às vezes, passava dias na casa dele ajudando a escrever uma peça, ou fazendo algum outro trabalho”, conta em entrevista ao Cineweb, via Zoom, de sua casa em São Paulo.

A ideia para o filme começou há alguns anos, quando o icônico prédio do Oficina foi destombado pelo Condephaat, o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico, o que permitiria que o grupo Silvio Santos construísse, ao lado, três torres de 100 metros de altura. “Ficamos muito indignados, e o Joaquim começou a filmar. Mas a ideia nem era fazer um filme, era apenas ter esse material do momento gravado.” A disputa do Oficina com o grupo do magnata da mídia continua até hoje.

Mas logo perceberam que havia a necessidade de se fazer um documento abrangendo a história do Oficina, que não começava ali. Contando com a pesquisa de audiovisual de Eloa Chouzal, a dupla de diretores se deparou um material bem vasto, colhido no Brasil e no exterior. “Era uma quantidade inimaginável, ficamos mais de 6 meses só assistindo a esse material. E depois começamos um processo de montagem, para o qual estávamos muito abertos.”

Ele conta que o desapego pelas versões do filme permitiu que os dois mostrassem o longa em vários estágios a pessoas cuja opinião era importante. “Sempre mostramos para o Zé Celso, afinal, é uma história dele também. Depois mostrávamos para outros cineastas que estiveram envolvidos com o Oficina, atores do grupo, e depois até para gente nem conhecia o trabalho da companhia. Era importante que o filme fosse compreendido por todo mundo, não apenas pelos iniciados no assunto.”

O longa fez sua estreia nacional no Festival É Tudo Verdade de 2021, do qual saiu com uma menção honrosa e o prêmio EDT para a montagem. Composto basicamente de material de arquivo, Máquina do Desejo é um filme potente em seu retrato, num formato anárquico e questionador – como o trabalho do Oficina. “Não podíamos fazer um filme quadradão, careta, pois não tinha nada a ver com o Zé Celso e a companhia. Foi preciso encontrar a maneira apropriada de narrar essa história.”

Weglinski conta que conheceu o Oficina e Zé Celso quase por acaso, quando, durante a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, anos atrás, apresentava um curta. Aí, foi convidado pela cineasta, cantora e montadora Ava Rocha a ir assistir a um espetáculo. “Eu não tinha nada a ver com teatro, minha área era cinema, nem ligava muito para teatro. Até que conheci o Zé, ele me disse que eu ia ser ator da companhia. Eu ri, jamais seria ator, mas ele me convidou para filmar espetáculos, e isso eu aceitei. Uma semana depois, tinha me mudado do Rio para São Paulo e estava trabalhando com ele. E, mais tarde, também me tornei ator.”

A paixão dele por teatro foi tão forte, que uma década depois do trabalho com o Oficina, voltou para o Rio de Janeiro, onde fundou sua própria companhia de teatro no Morro dos Prazeres. “Foi uma época de muito aprendizado.”

A parceria com Joaquim também veio por intermédio do Oficina, novamente. Em 2016, a companhia recebeu uma verba para apresentar a peça Os Sertões no Nordeste, nas cidades de Quixeramobim, onde nasceu Antônio Conselheiro, e em Canudos. “Precisávamos de alguém para filmar essa experiência, não podíamos deixar de ter um registro dessa apresentação. Aí que conheci o Joaquim, que era um jovem cineasta e montador.”

Máquina do Desejo começou a ser feito em 2017, à época do impeachment de Dilma Rousseff, atravessou o governo Bolsonaro, quando fez sua estreia no É Tudo Verdade, e chega aos cinemas no novo governo Lula. Weglinski explica que, como artista, ainda hoje sente os resquícios do bolsonarismo. “Ficamos muito tempo sem editais federais, sem ajuda do governo para o cinema. As coisas começaram a melhorar. O novo Ministério da Cultura já lançou diversos editais desde o começo do ano.”

Exibir um filme sobre um assunto tão transgressor no É Tudo Verdade, em pleno 2021, foi para o diretor um ato de resistência também. “Era um dos piores momentos da história do Brasil, muita perseguição, muita censura. Meu pai, que viveu a ditadura, ficou muito apreensivo. Toda hora ele me perguntava se eu sabia onde estava meu passaporte, caso fosse necessário sair do país”, conta o diretor, hoje se divertindo.

Sobre Zé Celso, Weglinski, que o conheceu de perto, ressalta que uma de suas características mais fortes era sua luta, sem nunca se dobrar, sem nunca se fazer de mártir. “Ele passou por tantas coisas, incêndio do Oficina [em 1966], a perda de forma brutal do irmão, a ditadura, Bolsonaro, a disputa com Sílvio Santos. Ele nunca se fez de vítima, sempre era muito estudioso. Eu não gosto quando as pessoas falam que o Zé era muito doido, mas, na verdade, ele era muito estudioso, um filósofo contemporâneo. Sua marca vai ficar, o Oficina sempre irá carregar seu espírito, sua criatividade. Isso ninguém apaga.”