20/02/2024

Julio Bressane investiga a atualidade de Machado de Assis em “Capitu e o Capítulo”

Cineasta fala da importância do escritor, e também do desafio de recriar um dos romances mais famosos da literatura brasileira, com Mariana Ximenes, no papel principal (Foto: Viviane D'Avila/Divulgação)



Julio Bressane e sua Capitu, Mariana Xemenes, nas filmagens de "Capitu e o Capítulo"
(Foto: Viviane D'Avila/Divulgação)

Quando perguntado sobre seu filme Capitu e o Capítulo, Julio Bressane é categórico: “Não é uma adaptação do romance. São apenas alguns poucos capítulos.” Não que alguém esperasse uma transposição convencional de Dom Casmurro pelo diretor de filmes como Matou a família e foi ao cinema e Dias de Nietzsche em Turim. Não é surpresa que o longa seja o mais transgressor entre as obras baseadas em Machado de Assis – até mesmo os outros dois do próprio Bressane: Brás Cubas e A Erva do Rato, inspirado em dois contos do autor, A Causa Secreta e Um Esqueleto.

Bressane conta, em entrevista ao Cineweb via Zoom, de sua casa no Rio, que trabalhava na adaptação de Memórias Póstumas de Brás Cubas, em meados dos anos de 1980, quando o poeta Haroldo de Campos lhe disse que o importante em Dom Casmurro não era Capitu, mas o Capítulo. “Aquilo me deu uma euforia, a musicalidade das palavras, mas na época eu não senti a extensão do ele estava dizendo. Foi só tempos mais tarde, relendo o livro, que percebi. O romance tem umas 180 páginas e 148 capítulos. Ao contrário de outras obras do Machado de Assis, com bem menos capítulos, e esses mais longos.”

Para Bressane, que assina o roteiro do longa com sua mulher, a professora de filosofia Rosa Dias, a força emotiva do livro está nos capítulos, na interrupção “como um signo artístico da epilepsia de Machado de Assis”. “A interrupção é a emoção contida, algo invisível. E o cinema pode ser a chave para ver isso.” Quanto ao texto, o diretor explica que não costuma fazer um roteiro propriamente dito, mas uma espécie de guia, com indicações e espaços para os improvisos, e a experiência serve de lastro para a compreensão das personagens e da ação.

Capitu e o Capítulo é protagonizado por Mariana Ximenes, Vladimir Brichta, como Bentinho, Enrique Diaz, como o mesmo personagem na maturidade, quando narra sua história, e é conhecido como Casmurro. Os poucos capítulos que o cineasta leva às telas dão unidade peculiar à narrativa, constroem a famosa história de amor e desconfiança. “Colocar apenas poucos capítulos dá ao filme a sugestão da estrutura do texto, que deixa o leitor completar a história. Eu queria essa mesma experiência no cinema.”

Interessa também ao cineasta, ele confessa, a disputa se Capitu traiu ou não – embora não se possa, realmente, chegar a uma conclusão. “Acho que essa discussão faz parte do encanto do livro. Havia uma época em que se chegava a fazer um tribunal para julgar a Capitu.” Ele aponta essa questão como um dos elementos que estão presentes no livro até hoje, assim como a percepção que Machado de Assis era capaz de ter da sociedade brasileira. “Ele é o clássico que permanece novo.”

Bressane explica que se aproximou de Machado pela forma, nos planos e cenas, e, para isso, foi fundamental o trabalho com o jovem diretor de fotografia Lucas Barbi (Os primeiros soldados). “Trabalhei com ele pela primeira vez, e foi uma experiência excelente. Ele foi muito cuidadoso na construção da fotografia, na seleção das referências de pintura, e descobrimos a linguagem das cores dentro do filme. Tudo tem um sentido.”

Com mais de meio século de carreira, que inclui curtas e longas, ficções e documentários, Bressane lançou recentemente, no Festival de Roterdã, A Longa Viagem do Ônibus Amarelo, um documentário de mais de 7 horas, no qual repassa toda sua filmografia, que codirigiu com o montador Rodrigo Lima. “É um filme de montagem e observação, com algumas figuras de linguagem, e também a ideia de que alguma coisa está encoberta no cinema. Encoberta, mas não escondida. O filme é investigar a ideia do que foi feito do cinema.”