20/02/2024

Thiago B. Mendonça traduz o lado lúdico do cinema em filme para crianças

Em “Um filme de cinema”, que estreia na próxima quinta (05), cineasta explora a história e possibilidades da sétima arte a partir do olhar infantil



O cineasta Thiago B. Mendonça e sua filha Bele, que estrela seu Um filme de cinema (Crédito: Divulgação)

Fazer um longa sobre crianças e cinema trouxe lembranças da sua própria infância ao cineasta Thiago B. Mendonça. “Meu pai era cinéfilo e me levava junto. Eu era pequeno e já via dois filmes seguidos na Mostra de São Paulo”, diz em entrevista ao Cineweb. Em Um filme de cinema, ele deu a chance às sua filhas, Bebel e Isa, de descobrirem a magia da sétima arte.

Ele conta que, no princípio, queria apenas fazer um filme sobre as meninas, sobre um bonito momento da vida delas, que na época tinham 7 e 3 anos – hoje estão com 15 e 10. Elas nasceram já cercadas pelo cinema e o teatro: o pai é cineasta e a mãe, produtora. Foi o cineasta Andrea Tonacci quem sugeriu a Mendonça fazer uma ficção. “Acabou nascendo um filme para elas e com elas. É também um filme que dialoga com coisas que eu gosto na cinefilia, como Chaplin e Buster Keaton.”

Em Um filme de cinema, Bebel recebe uma tarefa na escola: contar uma história e, por sua proximidade com o cinema, ela resolve fazer um filme com seus amigos. O pai, interpretado por Rodrigo Scarpelli, é cineasta, e fica receoso de emprestar sua câmera, mas acaba cedendo e deixa a menina e os colegas usarem um equipamento mais compacto. Elas começam a registrar o cotidiano, fazendo entrevistas, ao mesmo tempo que o pai, de forma lúdica, conta-lhes a história do cinema.

Para o diretor, este é um filme reflexivo, que combina documentário (as filmagens das crianças) com uma construção fictícia, mas baseada na realidade da família. “O tom de diálogo com as crianças acabou sendo muito orgânico. Pensei muito no que elas gostavam para colocar no filme.”

Mendonça, ainda na adolescência, teve como mentor de sua cinefilia o cineasta Carlos Reichenbach, pai de uma amiga sua. “Ele me passava muitos filmes em VHS. Alma Corsária, que ele dirigiu, me marcou muito, me fez querer ser cineasta. Foi a primeira vez que vi minha cidade [São Paulo] pulsando na tela.”

Um dos grandes desafios para o diretor em seu longa era encontrar a organicidade entre um aspecto realista e outro fantasioso, lúdico. “Queria fazer um filme musical, repleto de sentimento, que conversasse com as crianças, mas também com seus pais. A construção da narrativa foi feita a partir da música e é muito viva.” A trilha sonora é assinada por Zeca Loureiro, amigo de infância do diretor.

Mendonça confessa que o personagem paterno no filme tem muito dele, é um alter-ego, e ajudou também o fato de Scarpelli ser parecido com ele. “Já trabalhamos juntos no teatro, nos conhecíamos. Ele começou a me imitar de forma brincalhona e acabou construindo o personagem a partir de mim. Inclusive, parte do figurino são roupas minhas mesmo.”

Premiado no Festival de Tiradentes de 2016 com Jovens Infelizes ou Um Homem que Grita não é um Urso que Dança, Mendonça conta que vivia um momento de reconhecimento como cineasta, o que, para ele, gera uma certa ilusão de importância, e admite que queria rir um pouco dessa ilusão e brincar com o cinema.

Um filme de cinema estreou no Festival de Tiradentes, em 2017, mas, desde então, Mendonça voltou a trabalhar na edição do longa para a estreia nos cinemas. “Foi uma montagem demorada. Havia muito material filmado pelas crianças, mas eu tinha uma linha mestra para não perder o foco.”

Antes de sua exibição no festival mineiro, o diretor tinha receio de como o público infantil iria receber o filme. “Eles gostaram muito, as crianças ficaram grudadas na tela, e os pais ficam emocionados”. Durante a pré-estreia do longa em São Paulo, Mendonça conta que recebeu elogios de Paula Gaitán e Helena Ignez, que levaram suas respectivas netas à sessão. “Foi uma alegria muito grande elas terem gostado, pois são figuras muito importantes para mim e o cinema nacional.”

Outra função que ele vê em Um filme de cinema é na contribuição para a formação de público para as produções brasileiras. “É importante criar um olhar livre, feito para a liberdade de escolha. É preciso pensar na criança com liberdade para encontrar o que busca.”