28/02/2024

Um documentário que nasceu da pandemia e de cineastas experimentais


Para as cineastas Fernanda Pessoa e Chica Barbosa, o começo da pandemia foi, como para muita gente, assustador. Mas elas encontraram em seu ofício uma forma de se concentrar em outras coisas – mais ou menos. O documentário experimental Vai e Vem começou a ser feito em março de 2020, e, por mais que fosse sobre cineastas mulheres, a realidade que batia à porta não tinha como ficar de fora.


Fernanda morava em São Paulo, enquanto sua amiga Chica, uma brasileira-mexicana, acabara de se mudar para Los Angeles. Como uma maneira de manter contato, mas também fazer exercícios cinematográficos, elas começaram a trocar vídeo-cartas. Mas não eram aleatórias, elas partiram do livro da professora americana R. Blaetz, Women’s Experimental Cinema. A ideia era ler os capítulos, cada um dedicado a uma cineasta diferente, e a partir daí fazer seus próprios vídeos inspirados nelas.


“A primeira vez que eu estava conversando com a Chica havia um panelaço contra o Bolsonaro, e ela ficou curiosa, o que era aquilo?”, relembra Fernanda em entrevista ao Cineweb. “Nos nossos trabalhos, a política e o cinema sempre estiveram juntos. Não tinha como ignorar o que estava acontecendo aqui, e nos EUA, que era governado, na época, pelo Trump.”


Assim, Vai e Vem acabou sendo não apenas sobre as cineastas do livro de Blaetz. Aliás, a certa altura, elas mesmas tiveram de abandonar o livro e partir para suas próprias pesquisas. “Sentimos faltas de cineastas latinas, negras. Começamos a desenvolver nossa própria bibliografia, a ir atrás de outras diretoras expandindo a lista da Blaetz”, conta Fernanda, que hoje, faz um doutorado sobre o tema.

Chica, filha de pai mexicano e mãe brasileira, nasceu na Ilha do Governador, mas pequena se mudou par ao México, anos depois, morou em São Paulo, onde fez parte do coletivo Cinefusão, e hoje vive em Los Angeles, mas voltou ao Brasil para o lançamento do filme. Para ela, o filme foi uma forma de processar aquele momento.


“Eu tinha acabado de me mudar para os EUA, e percebi que Los Angeles era uma cidade onde as pessoas se sentiam sozinhas, mas por conta do filme acabei me aproximando de outras mulheres que viviam perto de mim”, explica em um português quase sem sotaque.


A dupla conta que a disciplina foi fundamental para a construção do trabalho que, a principio, nem imaginava como um filme, era apenas um exercício, uma forma de praticar cinema e manter a mente ocupada. Elas acabaram montando as primeiras cartas como um curta, Same/Different/Both/Neither, que teve boa acolhida em festivais, e perceberam que poderiam fazer algo maior a partir dali.


Em sua correspondência, além do cinema, elas registraram as transformações dos respectivos países, que tinham alguns elementos em comum – como, aponta Chica, a ascensão da extrema-direita. Além disso, 2020 era ano de eleições: nos EUA, presidenciais, no Brasil, municipais.

“Hoje a gente pode ver o filme em outra perspectiva, com certo distanciamento. O Brasil e minha vida mudaram muito. Eu entrei no doutorado por causa do filme, comecei a buscar meu próprio material, me separei”, conta Fernanda, que faz questão de ressaltar que sua ex-sogra está no filme. “Ela é maravilhosa. É um dos melhores depoimentos do filme.”


As duas também apontam que o cinema com o qual trabalham, o experimental, é marcado por referências masculinas, e a ideia de seus projetos é, entre outras, coisas abrir mais campo para mulheres. “Tudo é por uma perspectiva masculina, mas o Vai e Vem me trouxe um novo giro. Agora, só quero fazer filme com mulheres”, conta Chica.


Fernanda e Chica se conheceram em 2015, na diretoria da ABD, Associação Brasileira de Documentaristas e Curta-Metragistas. Desde então já tiveram escritório juntas em São Paulo, mas nunca haviam dividido a direção de um filme. “Foi preciso morarmos em países diferentes, uma longe da outra para surgir a oportunidade de trabalhar juntas”,
brinca Fernanda.