28/02/2024

Um filme como um espelho que reflete sobre fé, gênero e patriarcado

Em sua estreia na direção de longas, a italiana Laura Samani já mostra maturidade.
O Pequeno Corpo é um filme, situado num passado indeterminado, sobre uma jovem mãe (Celeste Cescutti), que busca um misterioso santuário conhecido por ressuscitar por alguns minutos bebês natimortos, para que sejam batizados, assim salvando suas almas do limbo. O longa acompanha a jornada dessa mulher em busca de redenção para sua filha.

Samani toca de forma profunda em temas complexos, como fé, gênero e patriarcado, e faz um filme, ao mesmo tempo, delicado e potente sobre o papel das mulheres num mundo marcado pela opressão masculina. Um dos grandes destaques aqui é a interpretação repleta de nuances da também estreante Cescutti.

Nessa entrevista ao Cineweb, a cineasta fala sobre o processo criativo, como foi trabalhar com não-atores e de como acredita que o cinema é um reflexo da sociedade que o assiste.


Como o filme começou? Que tipo de pesquisa você realizou para escrever o roteiro?


Em 2016, um senhor da minha região, Friuli Venezia Giulia, compartilhou comigo histórias intrigantes de peregrinações aos santuários que se desenrolaram há séculos. Eram lugares onde se dizia que milagres ocorriam, especificamente o renascimento de bebês natimortos, permitindo seu batismo e a libertação de suas almas do limbo. Esta revelação despertou minha curiosidade, provocando um mergulho profundo no fenômeno histórico. Descobri que havia vários desses santuários espalhados pelos Alpes.

Tradicionalmente, eram os homens que embarcavam nestas peregrinações, mas me perguntei: e se fosse uma mulher? Isto marcou o início de um processo longo de
investigação que durou dois anos, uma mistura de pesquisa histórica, exploração de locais e seleção de rua, tudo intimamente interligado ao processo de escrita.


Como você encontrou Celeste Cescutti? E que tipo de preparação ela teve?


Celeste apareceu para um teste. Na época, eu procurava uma protagonista temporária para filmar um promo do filme. Centenas de garotas apareceram, mas ela ficou na minha mente. Eu sempre imaginei o personagem de Ágata frágil e movida por uma ansiedade febril, enquanto Celeste é digna, tímida e forte. Isso mexeu com minha ideia original e me fez questionar muito sobre a personagem e o mistério da missão de Ágata.
O projeto exigiu grande empenho da Celeste, que teve que aprender a nadar, remar e mergulhar livre. No filme, ela fala um dialeto que não é o dela. Acima de tudo houve a vontade de fazê-la sentir-se segura. O Pequeno Corpo é o primeiro filme em que ela atua.


Que tipo de desafios você enfrentou ao fazer o filme?

O Pequeno Corpo é meu primeiro filme. Além de filmar durante a pandemia – para completar cinco semanas de filmagem, levamos um ano -, o desafio mais profundo para mim foi lidar com o conceito de liderança. Fui criada em um contexto onde o conjunto é uma estrutura hierárquica muito rígida e nunca me reconheci nela. Acredito em trabalho comunitário, no emocional, bem como em intercâmbio técnico e artístico. Tive muita sorte porque estreei acompanhada por profissionais que me deram a melhor impressão possível: tive tempo e maneiras de explorar essa dificuldade e encontrar minha própria voz.

A protagonista é uma personagem feminina muito forte; como você a vê em um mundo tão dominado pelo patriarcado?


Desde o início do processo de escrita, juntamente com os coautores Elisa Dondi e Marco Borromei, decidimos que em O Pequeno Corpo, os homens fazem as regras e as mulheres dão as soluções para escapar deles. A dicotomia é clara: figuras como Deus, o padre e o marido de Ágata definem os limites e estabelecem os regulamentos.

Em contraste, a própria Ágata, juntamente com a bandida, as três velhinhas e a eremita, representam as personagens femininas que impulsionam a história. E então, claro, há Lince, que está entre os dois mundos: ele entendeu há muito tempo que é mais conveniente ser homem do que mulher. Então, ele está ignorando sua parte feminina.

A maior parte do elenco é formada por pessoas que nunca atuaram antes. Como foi trabalhar com eles?


Em O Pequeno Corpo, todos os personagens são retratados por atores inexperientes, com exceção de Ondina Quadri (Lince) e Ivo Ban (Chefe da mina). O processo seletivo teve como foco qualidades humanas de cada indivíduo, qualidades que foram perfeitamente integradas à narrativa. Isso foi crucial para mim, que o elenco soubesse que podia confiar em mim. Quando eles estão na frente da câmera, é sobre eles, não sobre mim.


Como você criou o equilíbrio em cena?

Como leva anos para fazer um filme, é importante para mim me sentir bem enquanto trabalho. Eu gosto de ser rodeada de pessoas dedicadas e dinâmicas, e acredito fortemente na restituição mútua de energia. Clareza, transversalidade, devemos concordar uns com os outros como um bando de pássaros. Às vezes estou dirigindo e, às vezes, outros me mostram o caminho. Isso vale tanto para a equipe quanto para os atores.

Como tem sido a recepção do filme pelo público?

Muito emotivo. O que mais gosto é que cada público é diferente: de acordo com o contexto e o país, o que as pessoas captam do filme é diferente. Pode ser maternidade, fé, gênero e fluidez... Para mim, a reação do público à história serve como um termômetro, mostrando a temperatura social daquele país específico no momento. Reflete as questões e preocupações urgentes que são predominantes naquela paisagem cultural específica. O filme se torna um espelho, refletindo de volta para os aspectos do público sobre suas próprias experiências e desafios.