16/04/2024

Uma família feliz discute artificialidade no mundo contemporâneo

Reynaldo Gianecchini e Grazi Massafera em cena de Uma Família Feliz


O escritor e roteirista Raphael Montes conta que em sua cabeça tem um baú de ideias. De lá, tira várias que servem para livros, seriados ou filme – às vezes, servem para mais de uma coisa, como é o caso de
Uma Família Feliz, que chega aos cinemas nessa quinta-feira (04). Primeiro foi o roteiro do filme, e, em seguida, um romance, que acaba de ser publicado. Mas não é só isso - nesse caso, também trabalhou como diretor assistente ao lado de José Eduardo Belmonte.

“Eu gosto muito de contar histórias, e contar no cinema sempre foi um desejo”, diz Montes, em entrevista ao Cineweb. “Eu queria estar num set, ver como um filme era feito. O Belmonte me deixou participar de todas as etapas, desde a pré-produção. Criamos um método de trabalho juntos e, nas filmagens, eu ficava ao lado dele, podia sugerir várias coisas. Foi uma verdadeira escola de direção.”

Belmonte, que tem no currículo filmes como A Concepção e os dois Alemão, também explica que, para ele, fazer cinema é um processo coletivo. “Um filme é resultado de vários encontros. No caso desse, começou lá em 2015, quando o Raphael era roteirista de uma série que eu dirigia, e ele me contou a história que se tornou esse filme.”

Uma Família Feliz é protagonizado por Grazi Massafera e Reinaldo Gianecchini, que interpretam o casal Eva e Vicente, pais de duas filhas gêmeas (Luiza Antunes e Juliana Bim), e esperam o terceiro filho. Após o nascimento do menino, coisas estranhas começam a acontecer. A culpa recai sobre a mãe das crianças, que entra numa espiral de insanidade e medo, tornando-se alvo de acusações e retaliações.

Belmonte confessa que desde que ouviu a história contada por Montes tinha Grazi, com quem trabalhou na comédia Billy Pig, em mente como a protagonista,. “Era preciso uma atriz carismática, o público tinha que estar do lado dela no começo do filme. Depois, quando a dúvida se instaura, é outra coisa, mas até ali, tinham que comprar essa personagem como um todo.”

Em 2015, quando começaram a planejar o filme, a tal “cultura do cancelamento” não era exatamente uma realidade, ao menos não com esse nome. Nesses quase 10 anos, muita coisa mudou, e o filme se tornou ainda mais atual. Quando Eva é acusada de violência contra as filhas, todos os moradores do condomínio onde vivem se voltam contra ela. Nem por um minuto duvidam de sua culpa.

O escritor também explica que trabalhar com um filme de gênero permite que, ao seguir as regras preestabelecidas, discutir assuntos sérios e a sociedade. “As chaves do suspense são pouco exploradas no cinema brasileiro. O que mais me interessa é acessar o público por meio das emoções, e aqui, falamos de uma mulher que sofre as pressões sociais até o limite.”

No filme, há um questionamento dessa família idealizada. “Todos são lindos e felizes nas aparências, e esse é um dos temas do filme. A diferença entre a vida aparente e como as pessoas realmente são. A vida num condomínio tem muito disso”, explica Montes.

Para Belmonte construir essa artificialidade em que os personagens vivem foi acessar suas memórias de juventude em Brasília, onde cresceu. “Nos anos de 1970 e 1980, tudo ali era muito organizado, tudo muito arrumadinho. Era isso que eu queria trazer para o filme. Ao mesmo tempo, queria fazer um suspense iluminado. O gênero, geralmente, opta por uma estética mais escura, sombria. Eu queria o contrário. As histórias do Raphael têm a ver com uma brutalidade carioca.” O resultado, define ele, é “um filme do Belmonte, mas com características do Rapha.”