14/06/2024

“A Filha do Palhaço” combina humor e drama ao falar da paternidade tardia


Demick Lopes como Silvanelly e Lis Stutter, em cena de A Filha do Palhaço


O que acontece com o palhaço quando ele tem de tirar a maquiagem? Essa é uma das perguntas que instigaram o diretor Pedro Diógenes na criação de seu novo longa, A Filha do Palhaço. Primo do humorista Paulo Diógenes, o cineasta explica que sempre soube o que acontece nesse momento, mas queria transformar isso no ponto de partida para um filme.

O protagonista do longa é Renato, interpretado por Demick Lopes, um homem que ganha a vida como humorista, com a personagem feminina Silvanelly, que se apresenta em bares e churrascarias. Sua vida se transforma com a chegada da filha adolescente, Joana (Lis Sutter), com quem manteve ao longo da vida quase nenhum contato. Eles passarão uma semana juntos, e será um momento de descobertas para ambos e uma tentativa de reatar os laços.

Diógenes, que assina o roteiro com Amanda Pontes e Michelline Helena, começou a trabalhar no filme em 2012. Nesse período, muitas coisas aconteceram, inclusive ele se tornou pai pela primeira vez. “Ter um filho é uma revolução. Nada é como antes, um amor incondicional que a gente desconhece. Isso tudo me fez questionar, também, sobre pais ausentes. Como alguém pode abandonar um filho ?”, diz em entrevista ao Cineweb.

Esse novo elemento alterou o roteiro do filme, e fez o cineasta pensar na questão da paternidade tardia pela qual passa o personagem Renato, que se afastou da filha e agora tenta se reaproximar. “A possibilidade de transformação vem da própria filha, que vai atrás do pai, que não é idealizado e perfeito. Mas há muita potência dentro dessa imperfeição.”

A combinação de humor e drama é fundamental para que A Filha do Palhaço seja bem-sucedido. E isso dependeu muito do elenco. O roteiro foi escrito para Lopes, com quem o cineasta já havia trabalhado antes, e se tornaram amigos. “Vivemos nossa paternidade juntos. Tivemos nossas primeiras filhas na mesma época. Essa experiência compartilhada da paternidade foi muito importante para nosso filme.” Já Lis foi encontrada por meio de testes.

Demick, por sua vez, com a ajuda das preparadoras de elenco Samya de Lavor e Elisa Porto, criou duas personagens diferentes: Renato e Silvanelly. “Esse trabalho foi tão forte, que o Demick falava das personagens como se fossem duas pessoas diferentes que se contaminavam.”

Diógenes também destaca que, no seu processo criativo, a coletividade é importante, ajudando a construir o longa a partir de muita troca e muita escuta. Já a estética do filme veio de dois universos: o do humorista e o da adolescente. “Assistimos a vários shows de humor em Fortaleza para encontrar o tom. E a aparência do filme também muda conforme a relação entre Renato e Joana se transforma”.

O diretor aponta que “o bom humor tem uma crítica por trás”, e, com o filme, ele mostra um lado complexo da paternidade e do abandono parental, isso narrado pelo ponto de vista da filha abandonada. “Ela supera seus medos e preconceitos para resolver questões familiares do passado. É um filme que aponta para a possibilidade de famílias formadas das mais diversas formas possíveis. Não existe fórmula nem regra.”