15/04/2024

Um ano de diversidade e politização

Depois dos protestos em 2016 sob o lema OscarSoWhite, a diversidade parece que chegou à Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Filmes com temáticas e profissionais afroamericanos estão espalhados por diversas categorias, e, o que é melhor, pelos seus próprios méritos, sem precisar de concessões.


Só na principal categoria, a de melhor longa, três dos nove filmes têm como protagonistas personagens afrodescendentes: Moonlight: Sob a Luz da Lua, Um Limite Entre Nós e Estrelas Além do Tempo. Sendo que o primeiro, um drama sobre um jovem se descobrindo homossexual nas ruas violentas de Miami, tem chances reais de levar o troféu, já tendo vencido o Globo de Ouro de Melhor Filme Dramático.


O maior rival de Moonlight é o musical La La Land, que ganhou diversos prêmios – entre eles, Globo de Ouro e BAFTA – além de igualar o recorde de Titanic e A Malvada, concorrendo em 14 categorias, como melhor filme, diretor, ator, atriz, canção original, fotografia, roteiro, entre outros. A Chegada, Manchester à Beira-Mar, Lion: Uma Jornada Para Casa, Até o Último Homem e A Qualquer Custo são filmes com pouca ou nenhuma chance na categoria principal.

Entre os diretores, Damien Chazelle, de La La Land, também se destaca, já tendo recebido o Globo de Ouro, o BAFTA e o prêmio do Sindicato dos Diretores Americanos, o que é um forte indicativo das suas chances reais de ganhar o Oscar no próximo domingo (26-2).

Emma Stone, cujas premiações por La La Land começaram no Festival de Veneza 2016, despontou cedo como uma forte concorrente na categoria de melhor atriz. Ganhando o Globo de Ouro na categoria de atriz de comédia/drama, sua maior concorrente é a francesa Isabelle Huppert, que ganhou o Globo de atriz dramática e cuja interpretação em Elle, depois de passar batido em Cannes, onde o filme debutou em 2016, começa a chamar a atenção e pode surpreender levando o troféu.

Na categoria Melhor Ator, Casey Affleck começou a temporada de prêmios conquistando o Globo de Ouro, o BAFTA e uma série de outros. Mas Denzel Washington, de Um Limite Entre Nós (no qual ele também assina a direção), surpreendeu ao ganhar o prêmio do Sindicato dos Atores Americanos, outro forte indicador de premiação no Oscar.

Entre os coadjuvantes, a escolha de Mahershala Ali (Moonlight) e Viola Davis (Um limite...) é dada como certa. Esta é a terceira indicação da atriz, ainda que tenha sido um tanto discutível concorrer como coadjuvante, dado o tamanho do seu papel no filme, no qual tem status de protagonista, ao lado do personagem de Washington.


Outra categoria bem marcada pela diversidade, e talvez a mais interessante e concorrida no Oscar deste ano, é a de documentários em longa-metragem. Três filmes têm ao centro a temática da negritude nos Estados Unidos. A 13a Emenda, de Ava DuVernay; O.J. Made in America, de Ezra Edelman; e Eu Não Sou Seu Negro (foto ao lado), de Raoul Peck, em conjunto traçam um complexo painel histórico, social e cultural da presença afrodescendente nos Estados Unidos, de forma a torná-los complementares. Por isso, é praticamente impossível prever qual levará o Oscar. Bem mais difícil é que algum dos outros dois bons concorrentes, Fogo no Mar, do italiano Gianfranco Rosi (premiado no Festival de Berlim do ano passado), ou Life, Animated, de
Roger Ross Williams, seja o escolhido.


O Brasil, com seu fraco indicado Pequeno Segredo, ficou de fora da corrida pelo Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. A briga parece estar mesmo entre o alemão Toni Erdmann (foto ao lado), de Maren Ade, e o iraniano O Apartamento, de Asghar Farhadi (já indicado em 2012 pelo roteiro original de A Separação). Os dois estrearam no Festival de Cannes 2016, de onde o segundo saiu com prêmio de melhor ator e roteiro. Uma eventual premiação do iraniano no Oscar, além de tudo, ganharia um teor político de protesto contra as restrições do presidente Donald Trump à entrada de estrangeiros no país - que foi rechaçada por um manifesto conjunto dos diretores indicados este ano, um verdadeiro chamamento à universalidade da arte "sem fronteiras".