21/04/2024

Festival de Vitória apresenta longa cearense "Represa", que estreou em Rotterdam


Vitória - Na segunda noite competitiva do festival, a atração foi a ficção cearense Represa, do diretor estreante Diego Hoefel, que tem como cenário as ruínas da antiga Jaguaribara, cidade do sertão do Ceará que foi coberta pelas águas há mais de 30 anos atrás, para a construção de uma represa. No entanto, suas ruínas vêm reaparecendo desde 2015, devido a sucessivas secas.

Este cenário coberto de escombros é o ambiente percorrido pelo protagonista, Lucas (Renato Linhares), um gaúcho que vem procurar um irmão cuja existência descobriu há pouco. Ele é Robson (Gilmar Magalhães), um morador local que se transformou numa espécie de guia turístico para forasteiros interessados em conhecer as ruínas e seu lago - uma metáfora para a arqueologia social de um Brasil desfigurado por várias decisões políticas equivocadas, com efeitos desastrosos sobre as pessoas e o ambiente natural.

Tendo estreado mundialmente no Festival de Rotterdam, em fevereiro, Represa tem no elenco novos nomes do cinema cearense, como Jennifer Joingley, que interpreta Josy, filha de Robson, e David Santos, como o descolado guardião de uma pousada. A partir desse quarteto, o filme constrói sua dramaturgia, que aposta numa narrativa lacunar, que não dá todas as respostas e avança aos solavancos, entre esses escombros de um passado cujas chaves nem Lucas nem Robson dominam.


Eles são filhos de uma mesma mãe que, anos atrás, partiu do Ceará para o Rio Grande do Sul, o que motivou que os irmãos nem soubessem da existência um do outro. Assim, construíram trajetórias muito diferentes, o gaúcho mais urbano, o cearense mais rural, com comportamentos moldados pelas respectivas facilidades ou asperezas.
O roteiro, assinado por Hoefel, Marcelo Grabowsky e Aline Portugal, incorpora não só os sentimentos fluidos de dois homens muito diferentes como também esses coadjuvantes do lugar, como a filha de Robson, o rapaz da pousada e outros moradores deste lugar meio no fim do mundo, meio fronteira de muitas coisas, onde tantas vidas se equilibram e se expressam - e o filme se vale muito do não-verbal, da fotografia, dos sons, das paisagens, das festas, para moldar o ambiente deste trajeto, que não pertence só a Lucas, mas a todos os outros e cujo destino de busca parece mudar ao longo do caminho.

Neste e em todos os sentidos, trata-se de uma estreia promissora do diretor, gaúcho radicado no Ceará, professor da UFC, realizador de curtas e corroteirista de filmes como Elon não acredita na morte (2016) e Corpo Delito (2017).

Curtas

A noite competitiva de curtas trouxe títulos igualmente com empenho de linguagem. O concorrente paulista Ainda restarão robôs nas ruas do interior profundo, de Guilherme Xavier Ribeiro, representa o choque social de uma juventude periférica na cidade de Assis (SP) a partir da busca de um jovem por sua égua perdida com seus amigos motoboys.

No candidato carioca E nada mais disse, a diretora Julia Menna Barreto reconta a história da morte de seu pai, representando as lacunas da memória de um crime. E o capixaba O Último Rock, de Diego de Jesus, coloca em cena as incertezas de diversos jovens negros e periféricos vivendo sua última festa antes de entrar em lockdown, em março de 2020, por causa da covid-19.

Fotos: Diego Hoefel/Divulgação