20/02/2024

Documentário sobre o Clube da Esquina abre o Fest Aruanda

João Pessoa - Dando início à 18ª edição do Fest Aruanda, o documentário Nada Será como Antes (foto), de Ana Rieper (RJ), fora de competição, resgatou memórias do antológico Clube da Esquina, a turma mineira de músicos, cantores e compositores que assinou um dos discos mais emblemáticos da história da música popular brasileira, em 1972 - emprestando o nome da turma de garotos que se reunia numa esquina do bairro de Santa Teresa, em Belo Horizonte, e que deu ao mundo nomes como Milton Nascimento, Márcio Borges, Beto Guedes, Lô Borges, Wagner Tiso, Robertinho Silva, Nivaldo Ornelas, Tavinho Moura, Ronaldo Bastos e tantos outros talentos incontornáveis.
O documentário vale-se de poucas imagens de arquivo, optando por entrevistas saborosas com os personagens e colocando em relevo detalhes das circunstâncias da composição de tantas músicas que integram a memória afetiva de várias gerações: caso da própria “Nada será como antes”, “Um girassol da cor do seu cabelo”, “Um Gosto de Sol” e “Tudo o que você podia ser”, entre tantas outras.

Antes do longa, foi exibido o curta Aruanda, de Linduarte Noronha (1960), um marco do Cinema Novo, aproveitando a homenagem concedida a dois atores naturais daquele filme, Antônia Carneiro dos Santos e Érico Paulino Carneiro, que eram crianças durante as filmagens, na Serra do Talhado, no sertão paraibano, conhecida como um polo produtor de cerâmica.

Hoje à noite, no Shopping Manaíra, a partir das 18h30, tem início as sessões das mostras competitivas de curtas e longas, com os filmes Pulmão de Pedra, de Torquato Joel (PB) e Citrotoxic, de Julia Zakia (SP). A partir das 21h30, os filmes são Alvará, de Fernando Abreu (PB), O Brilho Cega, de Carlos Mosca ((PB), e Saudosa Maloca, de Pedro Serrano (SP).

Foco no presente

No debate do filme, a diretora Ana Rieper explicou que a opção por poucas imagens de arquivo se deveu à sua vontade de fazer um filme com uma ligação com o tempo presente, ou seja, criando uma conexão com o que está acontecendo hoje, recorrendo, inclusive, à inserção do contexto político da época da produção do disco, nos anos 1970, auge da ditadura militar e da repressão.

As afinidades políticas, aliás, eram apenas um dos aspectos que uniram aquele grupo, como explica Márcio Borges - que veio ao festival lançar dois livros sobre o tema do filme: “Antes de mais nada, o que nos unia era gostarmos de estar uns com os outros. A gente queria mudar o mundo, não fazer sucesso”.

Muitos deles, que estudaram na mesma escola estadual em BH, mesmo morando em bairros diferentes, gostavam das mesmas coisas em música, literatura e cinema, e foi a partir destas afinidades que se tornaram compositores. E o sucesso veio por si mesmo.

O cinema, aliás, era a primeira vocação de Márcio e também de Milton Nascimento nas artes. “Nós amávamos Jules e Jim, de François Truffaut, e queríamos ser aqueles dois personagens do filme, amigos, amando a mesma mulher e inseparáveis apesar disso”. Márcio lembra que Milton pensava em ser diretor de cinema e inclusive teve uma pequena carreira como ator, em filmes como Fitzcarraldo, de Werner Herzog, e Noites do Sertão, de Carlos Alberto Prates Correia.

Márcio lembra também que não foi a única carreira que Milton abandonou pelo caminho. “Ele pensava em ser economista em Furnas. Inclusive ele já trabalhava lá quando ia fazer vestibular. Aí, eu o levei para um bar, bebemos, conversamos e ele desistiu disso tudo. A música brasileira me deve isso!”, diverte-se.

Racismo

Márcio contou também que Milton, o único negro do grupo, foi vítima de diversos episódios de racismo. “Ele não podia entrar no clube da cidade de Três Pontas, onde ele morava, assim como em algumas boates de Belo Horizonte. Muitas vezes, quando os chefes de orquestra selecionavam os músicos que iam tocar nos bailes, ele era preterido, por causa da cor. A gente ficava com muita raiva de tudo isso mas o Milton optou por uma estratégia de calma”.