14/06/2024

Grande Sertão investe na estética mas não trai o texto de Rosa

Recife - Grande Sertão, de Guel Arraes, abriu a 28ª edição do Cine PE, trazendo para a tela do Cine-Teatro do Parque, no Recife, uma tradução urbana, atualizada, distópica e nem por isso menos intensa ou próxima do real da violência rural retratada na obra-prima de Guimarães Rosa.
O estilo de Arraes, diretor de Auto da Compadecida e Lisbela e o Prisioneiro, aqui assinando sua primeira tragédia, usa a artificialidade da fotografia, cenários e efeitos visuais com que compõem sua história para causar um deslocamento que tire o espectador de sua zona de conforto e venha compartilhar da turbulenta saga de seus personagens, os marginais Riobaldo (Caio Blat), Diadorim (Luísa Arraes), Joca Ramiro (Rodrigo Lombardi) e Hermógenes (Eduardo Sterblitch) em seu duelo contra o coronel da polícia Zé Bebelo (Luis Miranda).

O estranhamento prossegue na manutenção de inúmeras falas do próprio texto - em que Rosa faz constantes invenções vocabulares e são parte da imensa riqueza da obra literária. Esse foi um dos grandes riscos do filme, roteirizado por Arraes e Jorge Furtado, mas cujo visual espelha inúmeras influências do diretor, assumidas na coletiva de imprensa de hoje (7), e que vão desde Deus e o Diabo na Terra do Sol - filme que mais influenciou Arraes, segundo afirmou -, passando pelo cinema asíático, com menção explícita a Ran e Trono Manchado de Sangue, de Akira Kurosawa - Romeu e Julieta, de Baz Luhrmann e outros.

A comparação com Mad Max, cujo novo capítulo, Furiosa…, está nas telas, foi comentada pelo produtor Manoel Rangel. Ele lamentou que a classificação indicativa de Grande Sertão tenha sido maior do que a de Furiosa (18 anos, contra os 16 do filme de George Miller, e observou: “Eles têm um orçamento 60 vezes maior do que o nosso e um poderio muito maior na marcação de salas e na permanência nelas”.

Direção segura

De todo modo, é inegável o controle que a direção mantém em toda a duração do filme, num ritmo implacável de confrontos entre os membros dessa gangue urbana liderada por Joca Ramiro e enfrentada por Zé Bebelo, no centro dos quais se infiltra o amor proibido de Riobaldo pelo amigo de infância Diadorim - ao qual ele resiste por acreditar que se trata de outro homem, o que não é verdade, nem segredo nenhum para quem conhece a trama do livro, publicado em 1956 e já adaptado várias vezes para TV, teatro e cinema.

O próprio Caio Blat já encarnou Riobaldo três vezes, em peça e filme (O Diabo na Rua, no Meio do Redemunho) dirigidos por Bia Lessa e agora nesta versão de Arraes. Por isso, é natural que tenha sido ele o epicentro do projeto, que veio sendo planejado desde a pandemia e foi, finalmente, filmado em 7 semanas - um tempo que parece curto para a intensidade do filme, cujo ritmo não cai ao longo de seus 108 minutos.

Toda a adrenalina injetada na história ao longo do filme de Arraes pode ser o mote para que platéias mais jovens e não familiarizadas com o texto rebuscado e poderoso de Rosa possam ter despertado seu interesse pelo livro - ou quem sabe até abram uma janela para maior compreensão do livro pelos jovens.

Claro que as questões candentes e as ambiguidades que a história levanta não serão dirimidas tão brevemente quanto a duração do filme - e é aí, no desdobramento da reflexão que ele pode causar que a obra revelará seu alcance.

Espaços do cinema

Numa sessão concorrida - havia filas imensas de pessoas tentando obter convites do lado de fora, mesmo debaixo de forte chuva - e frequentada por políticos, como o prefeito do Recife, João Campos, e a governadora do estado, Raquel Lyra, houve boas notícias para o cinema.

O prefeito - que é sobrinho-neto do diretor Guel Arraes - anunciou a desapropriação de duas salas desativadas da capital pernambucana, o Trianon e o Art Palácio - que, como ele lembrou, foram mostradas no recente documentário Retratos Fantasmas, de Kléber Mendonça Filho -, e prometeu que serão transformados em espaços educacionais e culturais, inclusive com sessões de cinema.

E a governadora reiterou o compromisso de finalizar a reforma do histórico Cine São Luiz, cujo custo chega a R$ 3 milhões.