20/02/2024

Justine Triet ganha Palma de Ouro em "Anatomie d'une Chute"


Cannes - Afinal, foi para uma mulher, a terceira em todos os 76 anos do festival, a Palma de Ouro - a francesa Justine Triet, por seu drama policial/de tribunal Anatomie d’une chute, que deve muito de seu impacto à atuação poderosa da protagonista alemã Sandra Hüller. Aliás, muitos acreditaram que a atriz ganharia o prêmio de interpretação feminina, já que atuava também em outro filme favorecido nas apostas de premiação, o britânico The Zone of Interest, de Jonathan Glazer, que ficou com o segundo prêmio mais importante, o Grande Prêmio do Júri. E a melhor atriz foi uma grande surpresa, a turca Merve Dizdar, de Les Herbes Séches, de Nuri Bilge Ceylan.

Nenhuma surpresa, no entanto, na premiação, como melhor ator, para o japonês Koji Yakucho, o extraordinário protagonista de Perfect Days, de Wim Wenders, na pele de um limpador de banheiros que é um verdadeiro filósofo, um ser abnegado que cuida dos outros. A noite foi generosa também para outro japonês muito prestigiado em Cannes, Hirokazu Kore-eda, cujo Monster arrebatou o troféu de melhor roteiro para Yuji Sakamoto.

Nascido no Vietnã mas radicado na França, Tran Anh Hung levou o cobiçado prêmio de melhor direção pela saga gastronômica requintada La Passion de Dodin Bouffant, estrelada por Juliette Binoche e Benoit Magimel. E ficou para a sutil produção finlandesa Les Feuilles Mortes, de Aki
Kaurismaki, o prêmio do júri, que foi recebido pelos dois protagonistas, os atores, Alma Poysti e Jussi Vatanen, que interpretam o melancólico casal da história.

Anunciada a premiação, o balanço é que 2023 foi uma edição com uma boa seleção, com vários títulos de qualidade, alguns dos quais poderiam perfeitamente ter sido também premiados - caso do italiano Rapito, de Marco Bellocchio, ou Il Sol dell’Avvenire, de Nanni Moretti, entre outros. Uma boa surpresa, entre os novos nomes, foi da franco-senegalesa Ramata Toulaye Sy, com seu belo Banel & Adama.

Havia sete diretoras na competição, das quais a francesa Justine Triet saiu premiada - igualando a façanha de sua compatriota, Julia Ducournau, hoje membro do júri, e que venceu em 2021 com o polêmico Titane. Antes dela, só mesmo a neozelandesa Jane Campion com O Piano (1993). Representa muito, em termos de maior equidade, mas ainda falta um longo caminho a percorrer, como bem disse Jane Fonda, que foi entregar o principal prêmio da noite.

De todo modo, Justine Triet foi precisa e contundente ao agradecer o prêmio lembrando a repressão aos protestos contra a anunciada reforma na previdência francesa - que foram proibidos aqui em Cannes pela prefeitura - e criticando os estragosneoliberais na cultura conduzidos pelo governo Emanuel Macron.

Crédito da imagem:
Maxence Parey/FDC