14/04/2024
Drama

O som do silêncio

Ruben é baterista e forma uma dupla de punk-metal com sua namorada, Lou. De repente, ele perde a audição e precisa aprender a conviver com a nova realidade.

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A diferença entre ouvir e escutar está ao centro do drama O som do silêncio, cujo protagonista, um baterista de punk-metal, perde a audição. Riz Ahmed, indicado ao Oscar em 2021, interpreta o personagem, Ruben, e parece, finalmente, ter a chance de colocar todo o seu talento – quase sempre relegado a papéis coadjuvantes – em evidência. Na primeira cena, ele aparece fazendo uma apresentação com sua parceira do palco e da vida, Lou (Olivia Cooke). Ela se esgoela, enquanto ele toca como quem quer acabar com o mundo usando o som. Eles vivem com músicos nômades, viajando num trailer.
 
Pouco depois, sua vida se torna um silêncio total. A perda da audição é repentina e suas consequências, duradouras. Do desespero inicial, sem saber o que está acontecendo e como lidar, à desesperança, ao saber do preço de implante, que poderia ajudar em sua audição, são poucas horas. Ruben tem de aprender a encarar a nova realidade, sem muita alternativa, ao menos no momento. O desenho de som do longa, assinado por Nicolas Becker, parte do que Ruben ouve e é uma construção sagaz que causa um desconforto premeditado a um público sempre acostumado a ouvir em claro e bom som seus filmes. Merecidamente, o som do filme levou o Oscar 2021, além do de montagem (de Mikkel E.G. Nielsen). 
 
Dirigido por Darius Marder, a partir de um roteiro escrito por ele, Abraham Marder e Derek Cianfrance, O som do silêncio é um filme que nunca toma os caminhos óbvios, como os surrados dramas de superação. Ruben é um personagem com nuances e uma dimensão complexa diante do maior desafio de sua vida: como seguir em frente sem ouvir nada? Ainda mais complicador é o fato de que a única coisa que ele sabe fazer é música. Ele não consegue mais ouvir, mas isso não o impede de escutar o que as pessoas têm a dizer para ele.
 
Para isso, com relutância, ele se une a uma comunidade de surdos, onde deverá aprender a se comunicar com uma nova linguagem e compreender as pessoas que falam com ele. O grupo é liderado por Joe (Paul Raci), que convence o protagonista de que a única maneira de seguir em frente é aceitando a nova realidade e lidando com ela. Há um outro problema na vida de Ruben: por anos foi viciado em heroína, mas agora está limpo, porém Lou teme uma recaída.
 
A performance de Raci é impressionante, tamanha sua compreensão do drama de Ruben, e não é para menos - os pais do ator são surdos e ele sempre batalhou por filmes com um retrato mais honesto da deficiência, sem transformar as pessoas em mártires, como ele mesmo disse numa entrevista. O som do silêncio atinge esse objetivo. O filme não é nem um pouco condescendente com o protagonista, não o exime de seus erros, pelo fato de ter perdido a audição.
 
E, conforme a narrativa progride, Ruben revela, cada vez mais, seu verdadeiro eu, sua natureza doce e gentil. Aquele desespero tocando uma bateria nervosamente poderia ser apenas uma proteção diante das crueldades que já sofreu. E, sem romantizar a surdez, o longa faz um retrato honesto e generoso de uma pessoa em busca de seu novo lugar no mundo.
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