16/04/2024
Fantasia Drama

Crepúsculo do Caos

Reunindo imagens de arquivos pessoais de seu pai e avô e filmando cenas em cenários de ruínas, o diretor Derek Jarman compõe uma alentada reflexão para a decadência sócio-cultural da Inglaterra nos anos 1980.

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Um dos mais importantes nomes do cinema independente britânico, Derek Jarman (1942-1994), viveu intensamente um tempo marcado pelo punk, pela AIDS (de que ele morreu) e pela devastação sócio econômica promovida pela política ultraliberal da primeira-ministra Margaret Thatcher. Tudo isso e muito mais está em Crepúsculo do Caos, um de seus filmes mais experimentais e inquietos, em que ele despejou sua ira santa contra a decadência e a desumanização da Inglaterra.
 
O próprio Jarman aparece nas primeiras sequências, como um escritor que derrama letras no papel, enquanto se ouve um texto poético que fornece a moldura sonora a uma profusão de imagens - há trechos de super-8 familiares, que pertenceram ao avô e ao pai do diretor, além de sequências filmadas em cenários devastados, ruínas, destroços, em que se sucedem personagens diversos. Jovens que se injetam heroína ou se masturbam sobre um cartaz, refugiados aflitos sob a mira de homens mascarados e armados, um bailarino em drag que interage com um ambiente em chamas e diversos outros personagens que materializam também a militância homossexual do diretor.
 
Várias texturas se sucedem e também filtros, azuis, vermelhos, amarelos, fornecendo às imagens uma variedade que se torna um símbolo da inquietação que domina seu realizador. Ele não quer pacificar sentimentos, quer incomodar e também remeter aos contextos históricos. Não por outra coisa Jarman recorre a fragmentos de discursos de Hitler. Não quer esquecer que, muito antes de ser destroçada por Thatcher, a Inglaterra havia sido detonada de outro modo pelos nazistas. Não esquece, também, do passado colonial do império, recorrendo, por exemplo, a imagens do exército na Índia. 
 
Tilda Swinton, que se tornou uma atriz-fetiche do diretor, comparece aqui em sequências notáveis, como a noiva de um casamento grotesco, em que suas damas de honra são homens barbados em drag e que, ao final, despedaça seu vestido, dançando freneticamente num rodopio catártico. Esta é apenas uma das cenas emblemáticas de um filme que tem muitas, elaboradas pelo engenho cenográfico de Jarman, alinhadas em uma lógica artística própria, nutridas de literatura e recobertas por música - fora a trilha original de Simon Turner, há músicas adicionais de Barry Adamson (Refugee Theme), Andy Gill (Terrorists) e Marianne Faithful (The Skye Boat Song), entre outras. Afrontando uma linearidade estrita, Crepúsculo do Caos é uma experiência sensorial, um estímulo à inteligência do público - que, nos tempos que correm, pode encontrar sem grande esforço equivalentes modernos para toda a crise que o filme, de 1987, quis abordar.
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