15/04/2024
Documentário

Quando falta o ar

O documentário é um registro do cotidiano das mulheres profissionais do SUS durante o enfrentamento da pandemia em seus primeiros meses, em 2020. O filme foi o vencedor do prêmio principal do festival É Tudo Verdade de 2022.

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Grande vencedor do Festival É Tudo Verdade, o documentário Quando falta o ar, das irmãs Ana e Helena Petta, uma atriz, a outra médica infectologista, respectivamente, é um retrato humanizado da pandemia a partir do ponto de vista especialmente das mulheres que trabalharam e trabalham nos mais diversos níveis de enfrentamento no SUS. De maneira observacional, sem qualquer intervenção, acompanha-se vários tipos de atendimentos, desde o domiciliar, não raro nos locais mais precários, até na UTI, entre outubro de 2020 e janeiro de 2021.
 
“Eu não estou aí tratando uma doença, estou aí tratando um paciente”, diz uma uteísta. É esse cuidado mais humanizado que o filme retrata, com enfermeiras, médicas, funcionárias da limpeza e lavanderia, cujos cuidados não se limitam aos problemas físicos, desdobrando-se no apoio emocional aos pacientes.
 
Fora dos hospitais, agentes ensinam os cuidados para a prevenção contra a Covid-19, seja em casas ou mesmo em presídios. Num desses, uma enfermeira comenta sobre como a população preta sofre mais com a pandemia e o racismo nas penitenciárias, e completa mencionando a importância de levar aos detentos versos dos Racionais MC’s, do Emicida, da Billie Holiday (“falar para eles quem foi Billie Holiday, que esteve presa, foi dependente química, morreu muito cedo, olha o que o racismo fez”). Não é surpresa que, após essa fala, comece a tocar Strange Fruit, na voz da cantora.
 
O que vemos na tela é um trabalho incansável de prevenção e cuidados, que lida contra o negacionismo e o negligência. Uma enfermeira fala da tristeza de ver pessoas dizendo que a doença não existe, que é tudo invenção da mídia. Um cenário, que, aliás, persiste até hoje, mesmo dois anos depois do início da pandemia.
 
Quando Falta o Ar é também um documentário de contrastes: o som singelo da natureza é silenciado pelo barulho de pás no solo abrindo covas. É, de uma maneira simbólica, a percepção do grande contraste social do país, que se tornou ainda mais evidente nos últimos anos. “A pandemia é mais um medo de morrer, entre tantos outros, que a população pobre tem. [...] Elas ficam divididas entre ficar em casa e morrer de fome, ou sair e morrer de peste”, diz uma médica comunitária do Morro da Conceição.
 
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