16/04/2024

Pessoas caminhando pelas ruas nem sempre se dão conta do mundo que as cerca, que se manifesta em grafites e pichações nas grandes cidades. O documentário acompanha essa interação tipicamente urbana.

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Pele, de Marcos Pimentel, é convite a um mundo à parte, um documentário lisérgico no qual a invisibilidade de uma grande cidade ganha um colorido vibrante nas pinturas, grafites, propagandas em muros e fachadas. O cinza do concreto e do cimento é tomado por humanos e humanoides, animais e criaturas fantasiosas e palavras de ordem. 
 
Este é um filme que pede seu próprio tempo, sua própria cadência, obrigando o espectador a entrar nele – ou desistir de uma vez por todas. Não há meio-termo aqui e, nesse sentido, é um experimento cinematográfico dotado de sensibilidade que revela o mundo em que vivemos por meio do estranhamento. 
 
Há nesses muros figuras humanas captadas com verossimilhança, outras – especialmente animais – parecem saídas de uma mente surrealista. A cabeça de um gato fundida a um peixe, um Bob Esponja decadente, um Gato de Alice com um sorriso assustador, coisas que fascinam, mas também repelem. Há outras pinturas que são paisagens naturais com um colorido bucólico contrastando com o som dos carros que nunca param.
 
O que é mais interessante aqui é que tanto a cidade quando as pinturas não existem por si sós. A todo momento os moradores e moradoras das mais diversas idades e classes sociais estão integrados e integradas a essa paisagem urbana, que parece existir apesar de nós – e não por nós. 
 
A construção de Pele se dá não apenas pelas imagens, mas também pelos sons, sejam aqueles do ambiente urbano – carros, motos, ônibus e caminhões, conversas ouvidas ao longe, passos etc – o desenho de som, assinado por Vitor Coroa, é feito na medida para realçar todo o estranhamento que permeia o filme. 
 
A conjugação de todos esses elementos, na montagem de Ivan Morales Jr, é bastante reveladora do nosso tempo – de pautas a tensões sociais, de fé religiosa a símbolos mundanos indecifráveis. Tudo faz com que esse documentário pulse com vida e potência, e se os muros são a pele de uma cidade, o grafite e as pinturas são a tatuagem que traz cor e vida.
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