14/06/2024
Romance Drama

Na ponta dos dedos

Num futuro em que uma máquina é capaz de comprovar a porcentagem de amor entre duas pessoas, Anna e Ryan estão juntos há anos e, comprovadamente, se amam. Porém, quando ela começa um novo trabalho, um colega desperta dúvidas sobre seu casamento.

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A questão central que ronda este que é o primeiro filme em inglês do grego Christos Nikou é: seria possível medir racionalmente os sentimentos? Num momento futuro, na narrativa, foi criada uma máquina que calcula o percentual de amor entre um casal. Para isso, é preciso extrair uma unha de cada um, colocar num recipiente, e o equipamento calculará a porcentagem. Os sonhados 100% significam que as duas partes do casal se amam sem restrições. Já 50%, por exemplo, significa que apenas um deles está apaixonado.
 
É uma premissa que poderia sair de um filme escrito por Charlie Kaufman, combinando bizarrice com uma trama doce e personagens um tanto peculiares. Jessie Buckley faz Anna, uma professora primária que trabalha numa clínica que não apenas faz o teste, como desenvolve uma série de técnicas que aumenta o percentual de amor de um casal. Isso permite que eles façam uma espécie de curso para que possam se conhecer melhor e se “apaixonar mais”.
 
Anna vive com seu namorado Ryan (Jeremy Allen White) com quem, no passado, marcou a pontuação máxima. São feitos um para o outro e são aparentemente felizes. Mas fica claro, por exemplo, que existem problemas no paraíso quando ela esconde do marido onde está trabalhando e diz que o novo emprego é numa escolha chique. Na clínica, seu supervisor é Amir (Riz Ahmed), por quem ela parece começar a desenvolver sentimentos reais.
 
As consequências sociais são enormes diante dessa obsessão pela perfeição amorosa. Restaurantes oferecem descontos para casais certificados e até a história de Adão e Eva é reescrita com final feliz. Ao falar desse tipo de amor cientificamente comprovado, Nikou entra na questão do presente: um mundo onde algoritmos não perdem a chance de nos sugerir pessoas com quem fazer amizades virtuais e produtos para comprar.
 
O sentimento real é aquele sem comprovação científica, que se convence de sua existência sem explicação racional. Nesse sentido, Anna se torna uma rebelde quando desconfia estar apaixonada (e, possivelmente, correspondida) por Amir. O longa trata de suas questões com carinho e interesse nas dinâmicas pessoais e sociais que afastam e aproximam as pessoas. Sem grande ambições estéticas, é um filme marcado pelo sentimentalismo sincero, e é isso que vale.
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