15/04/2024
Documentário

Incompatível com a vida

Ao se descobrir grávida, a documentarista Eliza Capai começou a registrar sua gestação, até que veio o diagnóstico de que o feto era incompatível com a vida. A partir daí, ela documenta sua jornada para conseguir realizar um aborto legalmente. O filme também traz depoimentos de outras mulheres que passaram pela mesma experiência. Na Mubi.

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Grande vencedor do Festival É Tudo Verdade deste ano, Incompatível com a vida, de Eliza Capai, é um filme de uma força incomum. É também um documentário ao mesmo tempo, doloroso e libertador, trazendo, a partir de experiências pessoais, uma discussão que deve ser de âmbito nacional e está mais do que na hora de ser encarada de frente.
 
O que começa como um simpático, embora aflitivo, documentário sobre a gravidez, no caso, da própria diretora no começo da pandemia, logo se transforma num retrato pessoal e altamente político sobre o direito ao aborto. Pouco tempo depois de se descobrir grávida, Eliza recebe o diagnóstico da condição de seu filho ainda não nascido: uma má formação cerebral impede que a criança sobreviva ou, nas palavras do médico durante um ultrassom, “é incompatível com a vida”.
 
A dolorosa jornada de Eliza e seu companheiro na época, o fotógrafo português João Pina, torna-se o centro do filme, mas o documentário vai além: traz histórias de outras mulheres que enfrentaram problemas parecidos e precisavam passar por um aborto legalizado.
 
A primeira coisa que se percebe, praticamente de todas as histórias, é que realizar o procedimento não é nada simples. É preciso uma autorização judicial, e isso depende de trâmites burocráticos que, por diversos motivos (até má vontade) podem demorar, excedendo o período legal seguro para o aborto. Nesse caso, é preciso continuar com a gestação de uma criança que não sobreviverá.
 
Eliza, que viveu o drama na pele, é sensível o bastante para abrir espaço para suas entrevistadas e entrevistados compartilharem suas histórias sem pressa, no seu próprio ritmo de percepção e da forma como conseguem lidar. Enquanto isso, o filme discute com profundidade e competência como funciona o aborto no Brasil.
 
As histórias são as mais variadas e alguns fatos, impressionantes. Por exemplo, não é qualquer hospital que está preparado para o procedimento, ou ainda a instituição ou a equipe médica podem simplesmente recusar-se a fazer, ainda que com autorização judicial. Histórias como essas apenas expõem a importância da discussão da legalização do aborto em todos os casos no Brasil, e também eliminando a burocracia que torna ainda mais moroso o processo nos casos em que é admitido por lei.
 
Entrecortadas com as entrevistas, estão cenas da gravidez da diretora e de sua jornada, trazendo à tona questionamentos pessoais e até filosóficos sobre a vida e a maternidade. Num país assumidamente machista como o Brasil, Incompatível com a vida é um documentário corajoso e necessário. A bravura de Eliza em seguir em frente com o projeto, mesmo com sua gravidez complicada, é de uma generosidade imensa. O resultado é um filme pujante e, ao mesmo tempo, delicado em sua compreensão da complexidade das escolhas que a vida, às vezes, nos impõe.
 
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