20/02/2024

Vicenta Avendaño é uma faxineira pobre e analfabeta, que vive com a filha menor, Laura, num subúrbio de Buenos Aires. A mocinha tem 19 anos e a idade mental de uma criança. Quando a mãe descobre que a filha foi abusada sexualmente por um tio, ela se desdobra junto a todas as repartições públicas a fim de obter um aborto legal para a garota.

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O recurso à animação com bonecos mostra-se providencial para recontar a impressionante história de uma família pobre argentina, há bem pouco tempo confrontada com um enfrentamento desigual com o Estado argentino que chegou à ONU.

Darío Doria assina a direção, fotografia e montagem do filme, que resgata a figura de Vicenta Avendaño - um exemplo de que o empoderamento feminino pode estar onde o preconceito menos espera. Ela é uma faxineira analfabeta, que vive com a filha menor, Laura, que tem 19 anos mas a idade mental de uma criança, no bairro popular de Guernica, na província de Buenos Aires. 

Quando ela descobre que a filha foi abusada sexualmente por um tio e está grávida, começa o calvário de Vicenta - que, há anos abandonada por um marido abusivo, depende essencialmente da filha mais velha, Valeria, para deslocar-se entre as inúmeras repartições judiciais para tentar obter um aborto legal para Laura.

Fruto do trabalho meticuloso da ilustradora Mariana Ardanaz, que produziu maquetes detalhadas de cada espaço que aparece no filme, estes cenários em que as personagens se deslocam - ruas, ônibus, delegacias, tribunais, hospitais - são reproduzidos com extremo cuidado dentro de um universo em miniatura. Sem que se recorra a técnicas CGI ou stop motion, usam-se movimentos de câmera e uma iluminação especialmente eficaz para produzir a sensação de movimento. Além disso, há uma requintada precisão na produção de efeitos sonoros, como do som da chuva nos telhados de zinco do bairro pobre onde moram Vicenta e a filha.

A narração da cantora Liliana Herrero descreve com emoção contida o esforço hercúleo de Vicenta, superando suas dificuldades com uma determinação incansável diante de obstáculos inesperados - os piores vindo de juízes que, disfarçando mal seus preconceitos morais e religiosos, multiplicam obstáculos à interrupção da gravidez.

Mesmo em circunstâncias tão especiais, o aborto é, muitas vezes, um tema polêmico. Mas a honestidade e transparência desta história, ocorrida em 2006 e certamente não a única - e não apenas na Argentina -, é singular para que examine o assunto com a profundidade que merece. 

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