21/04/2024
Drama

Geração Roubada

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Poucas vezes a Austrália projeta o retrato que se verá aqui, de um país dividido entre uma sociedade branca, com aparência de desenvolvida e civilizada, e outra escandalosamente excluída, composta pelos nativos negros, submetidos a práticas de exploração abomináveis. Como a separação forçada de crianças nativas de suas famílias, sendo levadas para supostas instituições educacionais onde eram ensinadas a ler, mas também a negar a própria cultura, num fenômeno que evoca o apartheid, o nazismo e o aspecto mais sinistro da ditadura argentina.

A grande força do filme é colocar sua ênfase não nessas casas de "reeducação" e sim nas três meninas, as irmãs Molly (Everlyn Sampi) e Daisy Craig (Tianna Sansbury) e sua prima Gracie (Laura Monaghan). Lideradas pela intrépida Molly, que contava apenas 14 anos em 1931, data dos fatos, o trio empreende uma fuga espetacular, percorrendo cerca de 2.500 quilômetros para voltar para casa, na comunidade de Jigalong, norte da Austrália. Uma façanha respeitável, dado que as meninas estavam a pé, sem água ou comida, num ambiente árido, procuradas pelas autoridades e contando como orientação basicamente seguir a enorme cerca (a "rabbit-proof fence", ou cerca para proteção contra coelhos, que dividia o país de norte a sul).

A fantástica aventura das meninas, personagens verdadeiras e ainda vivas, octagenárias, e mostradas no final do filme, foi contada no livro que lhe deu origem, escrito por Doris Pilkington Garimara, uma das filhas de Molly - que foi levada à força novamente aos 24 anos, quando já era mãe de duas crianças. Indomável, Molly fugiu pela segunda vez levando a filha menor, Annabelle. Annabelle, por sua vez, foi retirada da guarda da mãe aos 3 anos de idade e perdeu contato com a família. Graças ao filme de Noyce, ela acaba de ser reencontrada.

Fora as meninas, dois personagens sinalizam os limites do que está em jogo na história. Um deles é A. O. Neville (Kenneth Branagh, o mais famoso do elenco), personificando o fanatismo da civilização branca que acredita ser seu dever "civilizar" a qualquer preço aqueles que considera como bárbaros e inferiores. De outro, o rastreador Moodoo (David Gulpilil), o nativo-colaboracionista que reencontra sua identidade numa secreta empatia com as fugitivas.

Geração Roubada comprova que Hollywood, onde Noyce trabalhou por 15 anos, dirigindo filmes como Jogos Patrióticos e O Colecionador de Ossos, não roubou a alma do diretor. Ele mesmo, por sua vez, vem mostrando que em seu peito bate um coração político, não só aqui, como em O Americano Tranqüilo, em que adaptou livro de Graham Greene.

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