27/02/2024
Alegoria

1.99 - Um Supermercado que Vende Palavras

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Este novo filme do diretor paulista Marcelo Masagão é apresentado como "primeiro trabalho de ficção" do diretor. Embora seja discutível que seus filmes anteriores, como Nós que Aqui Estamos por Vós Esperamos e Nem Gravata Nem Honra, possam rigorosamente ser enquadrados como documentários, este filme explora com certeza um território novo para o cineasta.

Há pelo menos uma linha ficcional mais explícita para colocar, num cenário todo branco, com prateleiras e carrinhos iguais aos de um supermercado, uma reflexão sobre os limites do consumismo. Só que os freqüentadores deste lugar, homens, mulheres, crianças, velhos e moços, só têm à disposição caixas de vários tamanhos, onde se lêem slogans, frases prontas, palavras ou apenas letras. Não há diálogos, mas cria-se uma série de situações dramáticas onde estas pessoas, também vestidas de branco, se relacionam. Do lado de fora outras tantas, vestidas com as cores e diferentes níveis de elegância da vida real, simbolizam os excluídos.

De tempos em tempos, uma patinadora (semelhante às consultoras de preços de alguns mercados) vai à porta e seleciona novos consumidores. De quando em quando, alguns outros são expulsos desse arremedo de paraíso asséptico e artificial, justamente na hora do pagamento, quando seu crédito se esgota. Além do desejo de entrar e permanecer, há algo mais em comum entre incluídos e desprezados - tanto um grupo como o outro faz o mesmo tipo de ginástica.

Há vários momentos que sugerem a tentativa de uma parábola social, como quando se identifica na bagagem cultural de uma velha senhora referências além da publicidade (contida nos slogans das caixinhas, muitos deles reais e usados com autorização de empresas creditadas nos letreiros iniciais). Entretanto, ao lado da mulher, sobem na tela nomes como Freud, Buñuel, Fellini, Kubrick, enquanto ela, que nada pega em seu carrinho e se encaminha a um setor de geladeiras, instala-se dentro de uma delas, imitando outros velhos ao seu lado. Uma nítida sugestão de morte.

Outro momento em que a crítica social se mescla à psicanálise - esta última, uma inspiração assumida nos agradecimentos à "assessoria psicanalítica" de Andrea Masagão - é quando um homem passa seu cartão num caixa eletrônico, provocando reação sexual no rosto da mulher que aparece no visor. Uma insinuação de que o apego ao dinheiro vem substituindo o desejo.

Com certeza, trata-se do trabalho mais interessante do diretor até agora, embora a ausência de diálogos, a escolha de uma trilha sonora quase toda minimalista (com músicas de Wim Mertens e algumas participações de outro gênero de André Abujamra) e até a duração (72 minutos) possam mostrar-se um tanto árduas para uma parte do público.
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