28/02/2024
Drama

Garotas do ABC

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Um trágico episódio confere uma atualidade premonitória a este novo filme de Carlos Reichenbach - os atentados contra mendigos no centro de São Paulo. Não que Garotas do ABC se refira especificamente a algo assim. Mas identifica com clareza o fenômeno do neofascismo que nasce ao redor das grandes cidades, personificado no personagem Salesiano de Carvalho (esplêndida interpretação de Selton Mello), mentor intelectual de ataques contra nordestinos e negros.

Este não é mais do que um detalhe de fundo - ainda que muito bem colocado - neste ótimo trabalho de Reichenbach. Um filme feminino, amoroso com suas protagonistas intensamente humanas e recortadas no universo operário do ABC paulista.

As operárias de Carlão têm todas as cores, idades, tipos físicos e temperamentos, contemplando a extraordinária diversidade do Brasil e da vida em geral com a naturalidade de uma câmera que se movimenta ao lado delas, em suas casas, na tecelagem em que trabalham, na rua, no ônibus, no Clube Democrático - onde elas dançam no sábado à noite e todo mundo se mistura.

Desenvolvendo com um misto de perícia e compaixão suas mulheres, Carlão conta a história de Aurélia (Michelle Valle), a bela negra que namora um neonazista em conflito com seu racismo; Paula Nélson (Natália Lorda), a decidida supervisora da tecelagem que não tem sorte com os homens; Antuérpia (Vanessa Alves), a mais velha do grupo, que luta para recuperar a guarda do filho; Suzana (Luciele di Camargo), moça que tem no corpo as marcas de uma absurda devoção pelo trabalho e o patrão; Nelinha (Márcia de Oliveira), a menor de idade; Lucineida (Fernanda Carvalho Leite), a rainha dos bailes; Kinuyo Sugawa (Lina Agifu), a nissei brincalhona; Indalércia (Viviane Porto), a valente.

Há homens, claro, mas eles são todos coadjuvantes. Nem por isso são todos desprezíveis como Salesiano - que aliás não é nada maniqueísta, ainda que permaneça vilão. A esta altura da vida e da carreira e com os meios de que hoje dispõe, Carlão é um diretor-roteirista (neste último quesito, dividindo os créditos com Fernando Bonassi) inteligente demais para deixar que o menor de seus personagens mergulhe naquele esquema binário de produções apressadas, que acarreta a sua desumanização. Assim, têm sabor também o repórter policial veterano (Ênio Gonçalves), o delegado (Adriano Stuart), o pai de Aurélia (Antônio Pitanga) e seu irmão (Rocco Pitanga).

O grande mérito na engenharia poética deste grande filme brasileiro é unir o particular ao coletivo, o familiar ao social, o afetivo-sexual ao político, sem esquecer como a música tempera existências às vezes tão anônimas - embora tão encharcadas de dignidade - quanto as destas operárias. É um destes filmes que ninguém deveria perder. Cada uma das histórias particulares poderia dar um filme. Mas Carlão optou por amarrá-las todas num painel múltiplo, desses que tanto encantam Robert Altman, não deixando de trazer para o primeiro plano o protagonismo da vida urbana, da cidade que pulsa por trás de todas estas vidas. Nesta cosmovisão humanista, o diretor fez bonito.

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