28/02/2024
Alegoria

Gregório de Mattos

Um dos mais importantes poetas satíricos do período colonial, o baiano Gregório de Mattos (1636-1696) é relembrado nesta cinebiografia muito livre e nada didática.

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"Minha vida nunca foi um mar de rosas", brinca a diretora Ana Carolina. A referência a um de seus filmes mais conhecidos, na verdade, é usada para justificar sua expectativa em relação ao novo trabalho, Gregório de Mattos, que foge completamente aos temas de suas últimas obras, sempre identificadas com temática mais feminina. A diretora sabe que seu projeto tem pouquíssimo apelo comercial, mas isso não lhe tira o sono.

Gregório de Mattos é um trabalho nitidamente autoral, no qual a diretora deu rosto e voz a um dos mais importantes poetas brasileiros, que embora nascido no século XVII, ainda hoje influencia a literatura e a cultura do País. A cara e a voz, nesse caso, são de outro poeta, o também baiano Waly Salomão, mais conhecido como inspirado letrista da moderna MPB.

O filme de Ana Carolina passa ao largo da preocupação biográfica e procura recriar de forma onírica fragmentos da vida do poeta usando seus próprios versos. E é essa responsabilidade que recai sobre os ombros de Waly, também poeta por ofício, que perambula pelas ruas e becos da velha Salvador (recriada em cenários do Rio e Niterói) e brada seus versos para freiras, escravos, bêbados e prostitutas. Para cada um desses personagens ele tem palavras de ternura, de escárnio ou obscenidades, de acordo com o momento e a conveniência.

Gordo, quase maltrapilho e sujo, como convém a um poeta maldito, Waly encarna o desafio de se tornar o Boca do Inferno. A câmera oscilante de Ana Carolina acompanha o ensandecido personagem e aproveita para mostrar como seria a cidade onde viveu o poeta. A personagem da cantora Virgínia Rodrigues, com uma voz sofrida, canta versos de Gregório tendo ao fundo a imensidão do mar que a separa da África natal. Em alguns becos, escravos também cantam ou respondem aos versos de Gregório, como um coro grego e negro.

A jornalista Marília Gabriela, no papel de uma freira, serve de apresentadora do personagem, narrando alguns fatos da vida de Gregório e dando um certo contraponto cômico em algumas cenas, quando os poemas são mais jocosos, pornográficos. E Waly parece estar muito à vontade no papel. "Faço versos como quem morre", poderia também ter dito, confundindo sua poesia com a do próprio homenageado.

Cineweb-16/8/2002

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