28/02/2024

Murphy tem mulher e filho, mas não esquece sua antiga namorada Electra, que desaparece. Angustiado, o melancólico rapaz relembra o próprio passado e sua delirante vida sexual ao lado da ex.

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Provocador, o cineasta argentino radicado na França, Gaspar Noé, gosta de polêmica e sem dúvida se beneficia do marketing sobre os “escândalos” que inclui em suas produções. Em Irreversível (2002) foi a violenta cena de estupro protagonizada pela atriz Monica Bellucci; em Viagem Alucinante (inédito no Brasil), o livro tibetano dos mortos e as doses massivas de drogas.

Agora, faz de Love (2015) o primeiro filme não-pornô a trazer sexo explícito em 3D, com direito a ejaculação masculina em direção à tela. Ainda assim, Noé está muito longe do pornozão e seus clichês com entregadores de pizza. Faz algumas cenas até elegantes, encontrando beleza e romance nas mais lascivas situações.

De forma direta, o diretor e roteirista constrói uma narrativa não-linear sobre um amor que terminou mal e, por isso mesmo, não acabou de verdade. Um dramalhão que começa com Murphy (Karl Glusman) recebendo uma ligação de sua antiga sogra: Electra (a modelo suíça Aomi Muyock), a mulher que realmente ama, desapareceu há dois meses.

O rapaz tem mulher e filho e faz dois anos que não vê sua ex-namorada, mas entra em um estado quase catatônico ao receber a notícia (também motivado pela ressaca e o ópio que consome). O pesar de Murphy o leva ao encontro de suas memórias e das decisões erradas que tomou com Electra, que a fez lhe dar um belo (e ruidoso) pontapé ao saber de suas escapadas.

O filme retrata assim a delirante vida sexual (com direito a uma e outra perversão) do casal, em mais de duas horas de projeção. Os vícios e excessos do par estão ali, apontando o sexo como termômetro para os altos e baixos desse relacionamento.
 
Apesar da expectativa que pode levantar ao falar de sexo de forma tão aberta, Love em nenhum momento é transgressor ou controverso, como os clássicos vigorosos O Império dos Sentidos (de Nagisa Oshima), Saló (de Pier Paolo Pasolini) ou O Último Tango em Paris (de Bernardo Bertolucci), referências no tema, ainda nos anos de 1970. Ao contrário, a obra de Noé é amena em sua construção melancólica, com claros toques autobiográficos, apesar da maratona sexual.

Longe da violência ou da psicodelia que marcaram suas obras anteriores, Noé continua a desafiar os limites da tolerância do público, com as excessivas cenas de corpos crispados de prazer. Um sexo estilizado, com altas cargas emocionais e sem inibições, como uma reflexão do próprio comportamento do autor.
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