28/02/2024
Episódios Documentário Comédia

Memórias da Boca

Oito cineastas assinam episódios, entre ficções e documentários, lembrando histórias e o clima da Boca do Lixo paulistana, que entre 1950 e 1980 foi um dos mais expressivos polos de produção cinematográfica do país.

post-ex_7
Memórias da Boca alinha oito segmentos, entre documentais e de ficção, para ressuscitar o espírito da Boca do Lixo paulistana – aquela faixa do centro velho da cidade, ao longo da rua do Triunfo, que representou um dos momentos mais produtivos do cinema brasileiro, entre 1950 e 1980.
 
Cada um dos episódios é assinado por um cineasta que participou deste cinema de emergência e garra, feito com recursos próprios, de olho no gosto popular e que se pagava na bilheteria, acumulando sucessos entre pornochanchadas, faroestes, policiais e também dramas e filmes de arte, como o emblemático O Pagador de Promessas (1962), de Anselmo Duarte, única Palma de Ouro brasileira até hoje.
 
O longa abre com a comédia Amigas para Sempre, de Alfredo Sternheim (Anjo Loiro), que opõe Blanche (Elisabeth Hartmann) e Dadá (Neide Ribeiro), duas antigas estrelas da Boca, inicialmente numa conversa amistosa. Rapidamente, no entanto, as lembranças das duas em torno de sua carreira dá margem a uma série de mágoas e termina em discussão.
 
Passagem do tempo, documentário de Mário Filho, relembra o surgimento da Empresa Brasileira de Produtores Independentes (Embrapi), que reuniu dez cineastas da Boca, que realizavam filmes de sexo para filmar outros gêneros. Entre eles, Carlos Reichebach, Ody Fraga, Jean Garret, Antonio Moreira e Cláudio Portioli, lembrados em imagens próprias e de seus filmes.
 
Também documental, o segmento Bangue-bangue, de Valdir Baptista, reconstitui memórias dos faroestes realizados na Boca, recorrendo a divertidos diálogos entre técnicos e atores. Além disso, o crítico Rodrigo Pereira observa que o gênero, que existe no cinema brasileiro desde 1917, chegou à Boca em 1969, tendo entre seus realizadores Ozualdo Candeias e Tony Vieira, entre outros, e mantendo um certo diálogo com o “western spaghetti”.
 
Outro segmento cômico, Entrando pelo cano, de Tony D’Ciambra, acompanha as duvidosas aventuras de um encanador (Eduardo Silva), que vai atender a uma emergência e é confundido com um cliente que encomendou práticas bizarras num bordel.
 
Triumpho 134 – Os Cineclubes da Boca do Lixo, de Diogo Gomes dos Santos, resgata um aspecto menos conhecido do lugar, destacando a exibição de filmes proibidos pela censura da ditadura militar e as discussões sobre cinema que aconteciam ali. Depoimentos de André Gatti e Alain Fresnot.
 
Autofilmagem, de José Mojica Marins, traz este que é um dos maiores astros da Boca andando pela rua do Triunfo, lembrando dos bares locais, o Soberano e o Ferreira, por onde circulavam cineastas, atores e técnicos que faziam os filmes locais. Participação da atriz Mel Lisboa, falando de Mojica.
 
Experiência Macabra, de Clery Cunha, recorda a experiência traumática de um ator, Carlos Marques, que viveu prova de fogo por não conseguir atingir uma atuação realmente dramática numa cena do filme Joelma – 23º andar (80). Conta o diretor que Carlos, que tinha mais experiência em propaganda do que como ator, ria numa sequência trágica, em que devia reconhecer o corpo da irmã (Beth Goulart). No entanto, depois de ficar trancado numa sala do IML, com corpos e ossadas, abalado, o ator fez a cena como requerido – vista neste filme.
 
Mil cinemas, de Diomédio Piskator, é o segmento mais experimental do conjunto, encenando os bastidores de uma filmagem típica da Boca, que alinha prostitutas, cafetões e pregadores de rua, que pedem “ao Senhor que abençoe este lugar de tantos pecados”.
post