01/03/2024
Drama

Antiga Alegria

Mark está casado com Tanya, à espera do primeiro filho. Há muito tempo ele não vê Kurt, seu amigo de infância, que telefona e o convida para um passeio a uma fonte termal na floresta do Oregon. Os dois recuperam vários temas do passado em comum. Mas a sensação de que algo foi perdido se infiltra também no clima.

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Kelly Reichardt tem um jeito especial de nos introduzir no ambiente de suas histórias. Neste Antiga Alegria, seu segundo longa, a imagem inicial é um close de um passarinho, abrindo-se a câmera para mostrar os arredores de uma cidade no Oregon, onde moram seus dois protagonistas, Mark (Daniel London) e Kurt (Will Oldham). 
 
Baseado num conto de Jonathan Raymond, corroteirista junto com Kelly, o enredo se desenvolve como mais uma daquelas histórias que parecem ser sobre nada em particular mas captam um pouco de tudo, se apenas se embarcar neste mini-road movie sobre dois amigos que perderam contato e procuram, além do caminho para uma fonte termal, vestígios de um relacionamento diluído.
 
Primeiro conhecemos Mark, em sua casa, com a mulher, Tanya (Tanya Smith), que está grávida. Kurt invade o espaço do casal pelo telefone, convidando o amigo para um final de semana junto nas fontes termais Bagby. Tanya poderia ir mas fica logo claro que se trata mais de um programa entre os amigos. Só os acompanha Lucy, a cachorra.
 
O minimalismo de Kelly nos coloca à vontade na intimidade de Mark e Kurt, que repassam, em conversas espontâneas e naturais, vários anos de uma convivência muito próxima. A sintonia, porém, parece algo perdida. E as diferenças entre os dois aparecem a olho nu.
 
As intromissões do mundo lá fora são de paisagens, construções: uma ponte, casas, árvores, galpões, uma igreja, tudo isso no rumo da floresta, que abriga as fontes. Mas Kurt sabe mesmo o caminho? Chegar às fontes é mesmo importante?
 
Através desta história intimista, a diretora está fixando as tintas de um retrato de vida interiorana e dos destinos de pessoas que, com algumas variações, existem em toda parte, pessoas miúdas, sem grandes poderes. Kelly conjuga um humanismo de pequenas coisas que extrai as maiores. Um encantamento com algo que passou infiltra-se na melancolia sutil que paira sobre os amigos.Fala-se de um sonho, de astrofísica, da paternidade e de tanta coisa que o filme parece voar diante de nossos olhos. Estamos ali, só nós com Mark e Kurt.
 
É notável como Kelly consegue entrar com delicadeza neste universo masculino, compartilhando sua específica camaradagem, de uma forma que ela repetirá de maneira ainda mais densa no recente First Cow - A Primeira Vaca da América. Ela filma estes seus personagens como alguém que pinta um retrato com uma série de pinceladas sutis, mas nos tons precisos, para atingir um perfil nítido. 
 
Um contexto mais amplo entra no filme através das emissões de rádio, que Mark escuta em duas ocasiões, quando dirige na cidade. Em ambas, infiltra-se um comentário crítico da América de George W. Bush, que encontra uma tradução ainda mais eloquente na sequência final, que inclui Kurt e um homem que pede esmola na porta de uma loja. Um final, aliás, aberto a múltiplas interpretações, expandindo a riqueza de um filme que venceu o prêmio Tiger no Festival de Roterdã 2006. 
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