20/02/2024

Sofia é uma jovem funcionária de uma editora, apaixonada pela literatura romântica da escritora inglesa Jane Austen. Sonhando com os romances idealizados de outras épocas, ela se vê magicamente transportada a 1830 por sua fada-madrinha. Nesse outro tempo, entre todas as estranhezas, parece encontrar o amor com que tanto sonhava com Ian Clarke.

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Raro exemplar de cinema juvenil originado da história de uma autora brasileira, Carina Rissi, Perdida é uma mistura peculiar de romance e filme de época que pisca um olho para a literatura de Jane Austen. A autora inglesa, conhecida por Emma, Orgulho e Preconceito e outros clássicos, é a referência de sua protagonista, Sofia Alonzo (Giovanna Grigio), uma moça que, apesar do celular na mão e dos tênis sempre nos pés, parece num estranho descompasso com o próprio tempo.
 
Sem mágica, não há história de fadas que funcione e esta é desencadeada justamente por um celular e uma Safada Madrinha (Luciana Paes) - personagem que, aliás, é a melhor coisa do filme, com seu humor sagaz e aparições surpreendentes sacudindo a rotina. Fato é que, sem saber como, Sofia vê-se lançada a 1830, no século XIX, indo ao encontro de um romance que parece corresponder aos seus melhores sonhos, com Ian Clarke (Bruno Montaleone) - um jovem rico, bonito, sensível e solteiro. Ou seja, segundo a tradição, melhor partido, impossível.
 
Evidentemente, a viagem no tempo deixa atônitas não só Sofia como as pessoas com quem passa a conviver - a quem seus modos e figurino causam um bocado de natural perplexidade. A moça tem aliados de peso em Ian e sua irmã, Elisa (Nathalia Falcão), ambos sempre prontos a defendê-la dos maus humores de Teodora (Bia Arantes), uma rival na conquista de Ian, e da sra. Albuquerque (Lucinha Lins), disposta a tudo para casar a neta, Valentina (Emira Sophia), com o solteiro mais disputado do pedaço. Num curioso papel de vilão, o humorista Hélio de la Peña encarna um médico, o dr. Almeida, uma espécie de padrinho de Ian, quer vê-lo rapidamente casado com uma moça do seu meio social, o que evidentemente não é o caso de Sofia. 
 
Dirigido por Luiza Schelling Tubaldini e Katherine Chediak Putnam, o filme se desloca entre cenários elegantes e paradisíacos, valorizados pela fotografia competente de Jacob Solitrenik, para compor a moldura de uma história romântica acima de tudo, por mais que se tempere com algumas pitadas levíssimas de feminismo a personalidade de Sofia. No final, resta pouco mais do que o par de tênis destoante dos longos vestidos como sinal de rebeldia neste capítulo do que se pretende o início de uma franquia, baseada nos livros de Carina Rissi. Se tudo der certo e houver outros filmes neste universo, espera-se que Sofia possa transformar mais o seu entorno do que ser engolida por ele, até porque a última coisa de que o cinema brasileiro moderno precisa é de uma mensagem a favor de uma heroína bela, recatada e do lar. 
 
Neste primeiro capítulo, é de se elogiar a inclusão com naturalidade personagens afrodescendentes. De se lamentar, que as ousadias parem por aí.
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