27/02/2024
Filme-ensaio

Luz nos Trópicos

Trafegando entre dois tempos, o atual e o século XIX, o filme acompanha as jornadas de um jovem Kuikuro, Igor, retomando contato com sua cultura, e de colonizadores europeus, impondo a ferro e fogo seus costumes aos povos colonizados.

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Lançada na mostra Fórum do Festival de Berlim 2020 e vencedora, como melhor filme, do 9o Olhar de Cinema, esta obra da diretora Paula Gaitán é uma jornada sensorial extensa (4h20) e exigente. Trafegando entre dois tempos, o atual e o século XIX, acompanha as jornadas de um jovem Kuikuro, Igor (Begê Muniz) e de colonizadores europeus (interpretados por atores como Carloto Cotta, Clara Choveaux e Arrigo Barnabé), variando texturas para traduzir na tela esses percursos pessoais e históricos, alternando cores e preto-e-branco. 
 
No tempo atual, Igor investe na retomada do contato com uma comunidade de seu povo Kuikuro, permitindo ao filme retratar seus modos de convivência, trabalho e dança e compartilhar um pouco da cosmologia por trás de uma visão de mundo tão diferente da europeizante, imposta a ferro e fogo aos povos colonizados. 

Com imagens extremamente belas (fotografia de Pedro Urano), captadas em diversos lugares, alguns deles que a onda de queimadas atual parece querer erradicar de nosso território  - Pantanal, Parque do Xingu, Chapada dos Guimarães -, outros nos EUA (Concord, Walden Pound e Nova York), Luz nos Trópicos não tem como ser usufruído senão com a entrega a uma viagem sensorial nestas paisagens e deslocamentos de corpos, que permita uma reflexão sobre processos históricos que constituíram a identidade dos povos latino-americanos. 
 
Mas esta é apenas uma das possibilidades de leitura de um filme tão vasto, que resiste mesmo à descrição e ao enquadramento em um único gênero. Seu projeto foi desenvolvido ao longo de 15 anos, logo depois da volta ao Brasil da diretora, retornando da Colômbia, onde ela cresceu (nasceu na França).

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