20/02/2024

Apaixonado pela música e decidido a ter uma carreira nela, o compositor tcheco Josef Myslivecek abandona sua Praga natal, radicando-se em Veneza em 1765. Vivendo precariamente de aulas de música, ele procura infiltrar-se na alta roda dos nobres, procurando um protetor - e o consegue quando mantém um caso com uma marquesa. Nem por isso deixará de ter uma vida plena de altos e baixos.

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Filmes de época respiram na medida em que sintonizam a voltagem das emoções dos personagens. Isso acontece no drama tcheco Il Boemo, de Petr Václav, que resgata a vida de um compositor hoje esquecido, Josef Myslivecek (1737-1781), através de suas lutas e suas paixões, usando como recurso cênico para contar sua vida as óperas requintadas pelas quais ele se tornou conhecido em sua época, na Itália.
 
Nascido em Praga, Josef (Voytech Dyk) deixou para trás uma família envolvida no negócio de moinhos para tentar a carreira musical em Veneza. Na cidade comandada por uma nobreza fútil e devassa, ele procura encontrar um protetor, enquanto se sustenta pobremente dando aulas de música. 
 
Uma poderosa marquesa (Elena Radonicich), de quem ele se torna amante, abre-lhe várias portas no alto círculo da sociedade, permitindo-lhe, finalmente, começar a mostrar seu talento. Um escândalo com uma aluna que se apaixonou por ele, no entanto, força sua mudança para Nápoles. Lá, ele tem outro encontro marcante com a cantora Caterina Gabrielli (Barbara Ronchi), uma prima donna temperamental em quem ele acha uma intérprete ideal para suas obras - e outra paixão turbulenta.
 
Com uma fotografia e direção de arte impecáveis, o filme consegue recriar uma atmosfera vibrante da época, seguindo estes deslocamentos do músico ao sabor de seus amores e dos caprichos de seus protetores, uma instabilidade que é traduzida pela encenação de trechos de suas próprias óperas - um recurso que funciona muito bem para traduzir o turbilhão de emoções do músico, que encontra um intérprete refinado no ator e cantor tcheco Vojtech Dyk. 
 
Uma sequência de destaque é quando o compositor é apresentado ao então pequeno Mozart (Philip Amadeus Hahn), já então um pequeno gênio. Em comum com Mozart, Myslivecek teria a vida breve. Morreu aos 44 anos, de sífilis, depois de amargar a miséria e o esquecimento, do qual, aliás, não foi retirado a posteriori, ao contrário de Mozart. Por isso, o filme de Václav, que realizou em 2016 um documentário sobre o compositor (Confissões de um desaparecido) tem, evidentemente, a intenção de preencher essa lacuna. A biografia de Myslivecek, que foi um músico requisitado na Itália do século XVIII, acabou sendo relegada aos rodapés da história da música, ao que tudo indica, injustamente. O "boêmio" - uma referência, na verdade, à região de onde era original, conhecida também como Boêmia, na verdade, parece bem merecer um outro olhar da História. Que sua música fale por ele. 
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