27/02/2024

How to have sex

Tara e mais duas amigas viajam a um resort repleto de jovens de sua idade, e com os hormônios em ebulição. Ela espera ter sua primeira relação sexual. Na Mubi.

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Grande vencedor da mostra paralela Un Certain Regard, em Cannes, o drama How to have sex, longa de estreia da inglesa Molly Manning Walker, toca em questões contemporâneas de forma sutil e contundente. O tema central é o consentimento sexual, e o que fica claro é: se há dúvidas de que a relação sexual foi consentida, é porque não foi. Quando há consentimento, não há espaço para dúvidas.

Trabalhando com um elenco excelente, Manning Walker, que também assina o roteiro, constrói o filme de forma contida. As camadas vão se acumulando aos poucos, até que, só no final, percebemos que essa é uma história sobre uma pessoa perdendo sua alma, até que esteja pronta para reencontrá-la.

Tara (Mia McKenna-Bruce), Skye (Lara Peake) e Em (Enva Lewis) são três adolescentes britânicas que acabaram de terminar o ensino médio, e aguardam para saber se foram aceitas em alguma universidade. Enquanto isso, fazem uma viagem para um resort repleto de pessoas da mesma idade e com os hormônios à flor da pele. 

Manning Walker e o diretor de fotografia Nicolas Canniccioni embebedam o filme em luzes, artificiais e naturais, que marcam a dualidade da experiência das meninas. Tara, às vezes, chamada de Taz, está ao centro. Ela é a única do trio que ainda não teve experiências sexuais e está disposta a tudo para, finalmente, deixar de ser virgem.

A ansiedade dela é a mesma que marca a narrativa: como e quando vai acontecer? Será com o rapaz apelidado de Texugo (Shaun Thomas), hospedado no quarto ao lado com dois amigos? A princípio, ele parece mais intrusivo, e estar apenas interessado em sexo, mas se revelará carinhoso e preocupado com Tara. Porém, o amigo dele, Paddy (Samuel Bottomley), uma personagem bem ambígua, será quem levará a protagonista a uma praia à noite.  

O rito de passagem com que a garota tanto ansiava torna-se um pesadelo ambíguo quando Paddy passa a esnobá-la. Tara começa a se fechar em si mesma. Aquela garota vivaz e animada está diferente. A amiga Em percebe que houve algo de errado, mas Skye está mais interessada em saber como foi, e Tara tenta fingir que tudo foi bom. 

A ambiguidade daquele momento de agressão sexual é construída pelo ponto de vista de Tara, que não quer acreditar que aquilo tenha acontecido com ela. Então, passa a se culpar. Manning Walker navega por todos esses sentimentos de maneira complexa, trazendo à protagonista uma profundidade rara. Ajuda muito, também, a performance delicada e nuançada de McKenna-Bruce, cujo olhar perdido ou melancólico é a marca do filme. Ela é capaz de trazer à tona toda a ambiguidade da personagem: do alívio de ter perdido a virgindade, mas também a tristeza de ter sido daquela forma.

How to have sex é um filme sobre e para o nosso tempo. Sobre as dificuldades e necessidades de se falar em consentimento e abuso sexual. E o fato de transformar esses temas num cinema de alta qualidade (a cena na loja de cosméticos no aeroporto é particularmente brilhante), muito bem filmado e interpretado, coloca Manning Walker na posição de uma cineasta a ser acompanhada com interesse. 

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