20/02/2024
Comédia

Todo mundo ama Jeanne

Depois do fracasso de um projeto ambiental, onde empenhou anos de sua vida e todo seu dinheiro, Jeanne Mayer é obrigada a ir a Lisboa, tentar vender um apartamento, deixado pela mãe que morreu. Na cidade onde cresceu, ela encara seus fantasmas e também um conhecido intrometido, Jean, do qual ela nem se lembrava mais. Nos cinemas.

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Em seu longa de estréia, após uma premiada carreira como curta-metragista, a cineasta francesa Céline Devaux compõe um saboroso retrato íntimo de uma jovem mulher, Jeanne Mayer, interpretada com sutil intensidade por Blanche Gardin. 

Na confluência da maturidade, Jeanne esperava a consagração profissional com o lançamento do projeto de pesquisa ambiental ao qual dedicou seus melhores anos e todos os recursos financeiros que pôde obter - a Nausicaa, uma sonda marítima projetada para capturar microplásticos no oceano. O desastre atinge em cheio o projeto e Jeanne se vê não só falida como exposta ao ridículo, em vídeos que povoam a internet, mostrando-a mergulhar, de roupa e tudo, na vã tentativa de resgatar sua sonda perdida. 

Sua única alternativa agora está em Lisboa, cidade onde cresceu e onde sua mãe, Claudia (Marthe Keller), deixou-lhe um apartamento, ao morrer. Seu único irmão, Simon (Maxence Tual), apóia a venda do imóvel, para que Jeanne se recupere financeiramente. Emocionalmente, este caminho é mais complicado.

O belo cenário da capital lusitana não é, no entanto, endereço de boas lembranças, especialmente pelas circunstâncias da morte da mãe. Com esse luto pendente, além de múltiplos sinais de uma depressão sempre negada, Jeanne encontra um conhecido do passado, Jean (Laurent Lafitte) - do qual ela não tem a menor memória.

Insistente e um tanto pegajoso, Jean demonstra decifrar o estado de espírito de Jeanne muito melhor do que ela, que não irá admiti-lo, porém. Seus sentimentos mais profundos podem ser lidos na tela através de criativas animações, baseadas em desenhos da diretora, que é também ilustradora e tem bastante experiência anterior no gênero. 

O curta de formatura de Céline foi a animação Vie et Mort de l’illustre Grigori Efimovitch Raspoutine, premiado no Festival de Curtas de Clermond-Ferrand, seguido de Le Repas Dominical, outro curta de animação selecionado para o Festival de Cannes 2015 e vencedor do César desta categoria em 2016. 

Retratando as interações mais ou menos acidentadas de Jeanne com corretores de imóveis e também um ex-namorado, Vitor (Nuno Lopes), o filme delineia a jornada atribulada de uma mulher fragmentada e perdida, à procura de um novo destino - com bastante ritmo, aliás, especialmente porque temperada pelas intervenções destes seu alteregos na animação, que eventualmente lembram Divertida Mente numa outra chave, bem mais adulta.

Dito isto, teria sido bem interessante ampliar este contexto lisboeta ao longo da história, aprofundando a menção à especulação imobiliária que devora tantas paisagens da capital portuguesa - um exemplo seria contar mais a respeito de uma vizinha (Isabel Cardoso) que se recusa a sair de um prédio, obstinando-se em não vender seu apartamento, ainda que seja a única moradora. O próprio passado da protagonista na cidade parece não ter deixado tantas memórias ou raízes quanto seria de se esperar. Para ouvidos brasileiros, teria sido interessante ouvir mais português ao longo do caminho, ou talvez contar com uma atriz bilíngue.

 

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