14/06/2024
Ação

Grande Sertão

Num futuro distópico, uma favela cercada por muros, chamada Sertão, é o palco da disputa entre facções e a polícia. Depois de perder uma aluna numa troca de tiros entre rivais, o professor Riobaldo decide entrar para uma facção. Lá reencontra seu amigo de infância, Diadorim. Nos cinemas.

post-ex_7

Em Grande Sertão, segunda adaptação para o cinema do romance de Guimarães Rosa, o diretor Guel Arraes substitui a experimentação formal do escritor modernista mineiro para fazer uma releitura radicalmente pós-moderna, situando a narrativa num tempo e espaço futuros, distantes do sertão mineiro e nordestino que servem de cenário ao original. 

Longe de qualquer preocupação purista, esse foi um risco que os roteiristas Arraes e Jorge Furtado se impuseram ao transpor o original, cooptando-o para um cenário urbano, claramente do eixo Rio-SP, embora o sotaque forçado de alguns personagens possa tentar parecer o contrário. A trama se desenrola numa favela futurista, marcada pela disputa entre a lei e a desordem – um dialética que o professor Antonio Cândido provou que é o que guia a sociedade brasileira. 

A favela high-tech se chama Sertão, onde um casal inesperado se forma ainda na infância – embora o suposto romance deles seja reprimido, afinal são dois meninos. A história é narrada por um deles, Riobaldo (Caio Blat) adulto, com feições que lembram Tiradentes – não por caso, afinal, a figura histórica é citada logo numa das primeiras cenas, quando Riobaldo assume as aulas na pequena escola da comunidade, onde ele mesmo estudou quando criança. 

Seu “amor” era seu amigo Diadorim, que conheceu na infância, e o menino se mostrou mais atrevido e sagaz. Os sentimentos de Riobaldo sempre foram conflituosos: como pode estar apaixonado pelo amigo? Diadorim adulto é interpretado por Luisa Arraes, e é por causa dele que Riobaldo entra no mundo do crime. 

Há claros ecos de Cidade de Deus na estética estilizada, na enorme quantidade de personagens que entram e saem, sem que ganhem um aprofundamento no filme. Aliás, tudo fica na superfície. Não é difícil localizar os personagens como tipos, como a mãe (Mariana Rios), cuja filha pequena morre por uma bala perdida na troca de tiros entre a polícia e traficantes. Ou Zé Bebelo (Luis Miranda), comandante da polícia, marcado por um visual que remete aos fascistas clássicos. Já Hermógenes (Eduardo Sterblitch) é um vilão ensandecido – com direito a pequenos chifres na cabeça – que pertence à facção de Joca Ramiro (Rodrigo Lombardi), pai de Diadorim. 

Mesmo com a fotografia e o cenário estilizados, o filme, às vezes, tenta trazer um naturalismo para tela, talvez para dar um respiro ao público, pois tudo é muito verbalizado aqui. Ainda assim, as duas horas de Grande Sertão pesam. O filme se perde em algum momento no seu meio, fica girando em falso, não sabe para onde ir, e seu assumido artificialismo predomina.

post