28/02/2024
Sátira

Tempo de Guerra

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Representante de um dos períodos mais criativos do provocativo diretor franco-suíço Jean-Luc Godard, Tempo de Guerra, com roteiro elaborado conjuntamente por Godard, Jean Gruault e Roberto Rossellini, adaptado de uma peça teatral de Benjamino Joppolo, é narrado como uma fábula antimilitarista, desmistificando o glamour e heroísmo tão comuns em filmes de guerra hollywoodianos. Não se espere aqui nenhum ato de bravura, nenhum resgate de companheiros presos em armadilhas, nenhuma libertação de nativos aprisionados por tropas invasoras. Os personagens de Godard querem apenas tirar o máximo de vantagem possível por estarem alistados, com autorização para saquearem povoados, violarem mulheres, trucidarem velhos e crianças.

A história se passa num país imaginário, governado por um rei que declarou guerra a um país vizinho. Dois irmãos pobretões moram numa cabana de madeira na companha da mãe e de uma irmã. Todos têm nomes históricos e mesmo míticos. O mais velho chama-se Ulisses (Marino Mase), o mais novo Miguel Ângelo (Albert Juross), a mãe Cleópatra (Catherine Ribeiro) e a irmã Vênus (Geneviève Galéa).

Ulisses e Miguel Ângelo recebem a visita de carabineiros com uma carta assinada pelo rei, convocando-os para a guerra. São convencidos de que se trata de um bom negócio e terão carta branca para fazer o que quiserem, podendo voltar ricos para casa com o fruto de seus saques. A proposta seduz a família e os dois homens partem para o front, prometendo retornar com muitas riquezas. Intercalando a ação dos irmãos nas batalhas com cenas verídicas de bombardeios e corpos mutilados, Godard critica de forma sarcástica suas façanhas heróicas. Os dois irmãos só pensam em tirar proveito dos mais fracos e cometer as maiores atrocidades sem o mínimo motivo. O tom é sempre de deboche, seguindo o espírito corrosivo de Alfred Jarry, conhecido no Brasil pela montagem de Ubu Rei. Como o Ubu celebrizado por Cacá Rosset, Ulisses está sempre com um charuto na boca.

As notícias sobre a guerra chegam para Cleópatra e sua filha através de cartas com detalhes sobre as atrocidades cometidas diariamente, em relatos repletos de cinismo. É uma oportunidade para Godard criticar as ideologias e quem se utiliza delas para enriquecer.

A fotografia de Raoul Coutard é valorizada pela montagem de Agnès Guillemot, que utiliza cenas reais de combate e de atrocidades de guerra. Numa das mais belas e criativas seqüências, Ulisses mostra a Cleópatra dezenas de cartões-postais, representando objetos, obras de arte, automóveis, aviões, monumentos mundiais, como sendo o tesouro acumulado durante as pilhagens.

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