Letras e fotogramas

Um retrato de opressão e liberdade no romance "O Baile das Loucas"

Por em 15/09/2021

O livro de estreia da francesa Victoria Mas é um romance histórico gótico que combina feminismo e espiritismo numa Paris do século XIX. La Salpêtrière funciona como um manicômio exclusivo para mulheres – essas pacientes são chamadas pelos médicos e enfermeiras de “alienadas”. Conforme se percebe, a maioria são vítimas de abusos físicos e mentais, e internadas pelas famílias que querem se livrar delas. Todo ano, no meio da quaresma, há um baile das pacientes, do qual a alta sociedade parisiense participa como espectadora.
 
A narrativa se passa a poucos dias desse evento, com a chegada de uma nova moça, Eugénie, uma médium de família burguesa, que está descobrindo o seu dom – após ler O Livro dos Espíritos, começa a compreender o que está acontecendo consigo, mas o pai a interna. A outra personagem central é Geneviève, uma enfermeira veterana e linha-dura que tem uma grande tristeza pois perdeu a irmã pequena, que irá se comunicar com ela graças à nova paciente.
 
Mas escreve um romance histórico com figuras reais (Jean-Martin Charcot) e fictícias, mas seu interesse central é no gaslighting e silenciamento das mulheres tachadas como loucas – uma saída bem mais fácil, para a sociedade, do que confrontar e prender os abusadores ou lidar com os gatilhos emocionais que elas enfrentam. O hospício é, dialeticamente, o espaço de confinamento, mas também de liberdade, onde podem ser quem quiserem. A prosa é cinematográfica e rica em detalhes, não à toa foi transformada em filme por Mélanie Laurent.

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