Letras e fotogramas

Sally Rooney sendo ela mesma - para o bem e para o mal

Por em 22/09/2021

Acho curioso como os títulos dos três romances de Sally Rooney são intercambiáveis. Qualquer um deles poderia se chamar Conversa com amigos, Pessoas normais ou Belo mundo, onde está você? São habitados por personagens que vivem num mesmo universo, em faixas etárias parecidas e com questões existencialistas ou materialistas em sintonia.
 
Aqui, Rooney, novamente, mostra seu controle impressionante da prosa e dos diálogos, assim como sua capacidade de criar personagens. As protagonistas são Alice e Eileen, amigas desde a faculdade que hoje vivem a vida de adultas, como escritora e editora numa revista literária respectivamente. O romance acompanha suas vidas de maneira bem próxima, às vezes, com uma narração que beira o tom documental. Mas elas mais se revelam quando trocam e-mails. São os melhores capítulos do livro.
 
Com mais de 350 páginas, o livro soa um tanto excessivo, um trabalho de edição mais apurado daria mais força ao material, que, em momentos, parece girar em falso. Rooney é uma autora interessada no romance enquanto forma, e aqui, ela deixa isso bem claro. As duas protagonistas parecem como dois lados dela mesma discutindo sobre o papel da literatura num mundo cada vez mais problemático e degradado. Não tem nada a ver com uma visão da arte como algo superior, pelo contrário, parece mesmo mais um sentimento de culpa dela. De qualquer forma, embora aqui, ela não atinja o mesmo nível de Pessoas Normais, as últimas 30 páginas de Belo mundo são genuinamente emocionantes.

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