Entrevistas

"Noites de Alface" e a necessidade da ficção

Por Neusa Barbosa

Publicado em 23/06/21 às 14h46

    Marieta Severo e Everaldo Pontes, em cena de "Noite de Alface" (Crédito: Divulgação)
 
 
Adaptado do romance homônimo da jornalista e escritora Vanessa Bárbara, o filme Noites de Alface, de Zeca Ferreira, retrata a rotina de um velho casal, Ada (Marieta Severo) e Oto (Everaldo Pontes), que de repente é abalada por um corte drástico.
 
Trata-se do primeiro encontro na tela destes dois brilhantes veteranos do cinema e do teatro brasileiros e que Marieta descreve, na coletiva online do filme, como “muito especial”, porque o ator é “um companheiro de viagem de primeira”. Ela completa que “tudo fluiu muito fácil e muito bem” e ainda teve, de quebra, a presença de três atores do grupo Galpão, Inês Peixoto, Teuda Bara e Eduardo Moreira.
 
Everaldo, por sua vez, devolve o elogio a Marieta; “Estar do seu lado foi um luxo, presente dos deuses”. E o ator paraibano ainda cita como vantagem adicional ter feito o filme na ilha de Paquetá, que ele não conhecia. “É uma viagem no tempo”, descreveu. O diretor do filme mora em Paquetá.
 
O diretor comenta que os dois atores ensaiavam já no set, não antes, e ele ia encaixando o tom. “A gente não pode apressar, tem que ir confiando e passando confiança que tudo vai encaixar, ainda mais trabalhando com planos-sequência”. Uma vantagem, para Zeca, é que “Marieta e Everaldo são muito diferentes em suas técnicas mas são complementares”. 
 
Ficção para profissionais
 
Sobre Noites de Alface, Marieta tem as melhores palavras: “O filme tem essa delicadeza, a poesia e a necessidade da ficção - sem ela, as pessoas sucumbem”. Ela ressalta como vê a importância de uma história intimista como esta chegar às telas neste momento em que o País “está absolutamente ao contrário, no sentido de asfixiar a poesia e a cultura, enaltecer a violência e o obscurantismo. O filme é um momento de luz num momento de tanta escuridão”. Everaldo completa, dizendo: “Faltam perspectivas como ator e como cidadão. Enquanto estivermos sob a égide de um governo protofascista, vamos perder muitas vidas, muitas obras”.
 
O diretor Zeca Ferreira concorda: “Nós estamos sob ataque, nós, da cultura, e a Marieta ainda mais, por sua exposição. Ela coloca muito bem isso da ficção ser uma necessidade humana, só por isso a gente consegue sobreviver, assim como o Oto no filme”. 
 
Para Zeca, “a gente está num país doente. Algo se desequilibrou na nossa relação com a ficção, a gente está negando a ciência. Marieta e Everaldo são os ourives da ficção, deixem a ficção para os profissionais”. 
 
Falando do livro que adaptou para a tela, Zeca comenta que o que o atraiu para a história foi a descrição da casa e da ausência de Ada. “Ada se foi, Oto ficou ilhado, ela é que fazia as pontes. Vi o filme ali”, aponta. Everaldo, por sua vez, cita uma frase do livro - “a casa sem Ada é de gavetas vazias” - como aquela que lhe deu a chave do personagem Oto. “Essa frase marca a busca dele de motivação para qualquer coisa, isso se parece muito comigo”. 
 
Esse isolamento de Oto, que passa muito tempo observando a vida do lado de fora, através de uma janela, afinal tornou-se uma espécie de paradigma para tempos de pandemia. No entanto, o filme foi realizado bem antes, em 2019. Teria sido lançado há um ano atrás, não fosse a pandemia. Ainda assim, Zeca está contente de vê-lo finalmente em lançamento. “A gente queria muito esse filme nos cinemas, para muita gente. Nem sei como divulgar o filme agora, mas acho que vou divulgar para os vacinados”. 
 
Falando da produção cinematográfica nacional, Zeca ressalta achar que “ a gente nunca produziu tão bem, inclusive o cinema da periferia, de Contagem (MG), da Ceilândia (DF), da Paraíba. É uma produção muito poderosa, mas com dificuldade de encontrar seu público além do nicho dos festivais. Ainda assim, acho que vale a pena. Houve essa implosão no financiamento público, agora existe essa dependência das plataformas internacionais, mas os filmes têm que ir para a rua, da maneira como for possível neste momento”.
 
Clique aqui para ler mais sobre o filme















Neusa Barbosa

Outras notícias