Entrevistas

Documentarista resgata trajetória de travesti, atriz e ativista Luana Muniz

Por Alysson Oliveira

Publicado em 11/08/21 às 11h32

 Luana Muniz, em foto de Ana Carolina Fernandes (Crédito: Divulgação)
 
Luana Muniz foi travesti, atriz, cantora, ativista. Ficou nacionalmente conhecida quando apareceu num programa televisivo gritando contra um cliente abusivo: “Travesti não é bagunça”. Mas o documentário Luana Muniz – Filha da Lua tem a qualidade de mostrar que ela foi muito mais do que esse bordão. Dirigido por Rian Cordova e Leonardo Menezes, as filmagens estavam sendo finalizadas quando ela morreu, em 2017. Nessa entrevista, Menezes fala, entre outras coisas, sobre como foi a filmar, a importância dela para pais.
 
 
Como foi a gênese do filme? Vocês já conheciam a Luana ?
Eu e Rian conhecemos a Luana por meio da Lorna Washington, ator transformista que retratamos no nosso primeiro documentário Lorna Washington - Sobrevivendo a Supostas Perdas. A Luana, de cara, nos pareceu ser uma personagem com características fortes e marcantes. Ela sempre se tornava o centro das atenções nas rodas de conversa e possuía um magnetismo fascinante. Ao mesmo tempo também era capaz de gerar reações distintas em diferentes pessoas, sem nunca passar desapercebida. Daí surgiu a ideia de fazermos um documentário com ela.
 
Como foi a aproximação com ela para fazer o filme? Ela aceitou logo de cara?
Foi depois de alguns jantares e encontros que tivemos com Lorna e Luana que começamos a conversar com Luana sobre ela ser retratada também em um documentário próprio. Logo percebemos que teríamos que conquistar o acesso aos diferentes ambientes que fazem parte da vida de Luana, dos palcos à rua. Não foi fácil. Por ser uma influenciadora e com tantas atuações distintas como ativista, artista, empreendedora, sacamos que teríamos que iniciar o projeto do documentário com Luana enquanto ainda estávamos filmando o documentário sobre a Lorna. Como as duas eram amigas, houve uma forma de influência mútua nos filmes de ambas.
 
Como foi a convivência com a Luana durante as filmagens?
Luana possui uma personalidade forte, recriou sua própria história. Ela se abre completamente para aqueles em quem confia e admira, e também pode ser severa com quem lhe falta com educação ou na administração do casarão da Lapa. A exigência que ela levava para sua atuação nos palcos e na relação que tinha com as meninas do casarão também ficou evidente nas gravações, retratada sem filtros e transparente em vários momentos. Comparado com o documentário da Lorna cujas gravações se estendem por nove anos, no caso da Luana avançamos numa velocidade mais rápida devido aos diferentes desdobramentos que aconteceram em sua vida nos quase três anos que a acompanhamos, dinâmicos como ela própria.
 
Vocês têm um material de arquivo muito rico, como foi feita a pesquisa? E a montagem?
O fato de Luana ser uma pessoa querida e admirada por muitos, fez com que ela tivesse sido retratada em fotos e vídeos de arquivos pessoais que nos foram compartilhados por pessoas do seu círculo íntimo. A busca por materiais de acervo, especialmente vídeos, ao longo da história, exigiu muitas conversas e o apoio de amigos nos grupos nos quais Luana era presente, do Grupo Arco Íris à Turma Ok, criando pontes com pessoas que acompanhavam Luana nas suas apresentações. Precisamos também comprar trechos do Profissão Repórter da Globo pois eram imagens que se tornaram icônicas.
 
Quais descobertas que vocês fizeram com o filme?
Eu particularmente descobri uma Luana que eu não conhecia das histórias do que já tinha visto na TV, nos vídeos da Internet e nos palcos. Descobri uma Luana amável, justa, engraçada, rigorosa. Mas acima de tudo alguém que buscou todos os dias conquistar seus sonhos. Sendo ela mesma o sonho de muitas outras. Um lado talvez pouco conhecido de Luana e que o público poderá descobrir no documentário.
 
Vocês têm experiência na direção para a TV, como foi dirigir para o cinema? E como é dirigir a quatro mãos?
A TV exige uma rapidez na forma como a narrativa é construída pois está numa lógica de produção industrial. Já o campo do documentário pro cinema é, talvez num clichê, mais artesanal. E os incentivos públicos e editais para documentários estão em outros patamares de valores, quando comparados com os filmes de ficção, fazendo com que a entrada de recursos sejam fragmentada muitas vezes. Quando o tema é controverso, pode tornar-se um ato de resistência até. Enquanto fazer cinema independente exige garra e paciência dos documentaristas, é importante perceber como vários projetos conseguem avançar justo pela visão que os documentaristas possuem ao mostrar realidades que muitas vezes demoram a se desvelar. Gosto muito de dirigir em parceria, como tem sido com o Rian, por conta da troca e da co-construção, já que cada um traz um complemento sobre os diferentes pontos de vista de uma mesma pessoa ou tema.
 
Como foi finalizar o filme sem a Luana?
Curiosamente quando estávamos quase encerrando as gravações do documentário, tivemos a despedida inesperada de Luana. Tivemos que refletir rapidamente como que esse momento poderia influenciar a montagem do filme e recebemos retorno de novos entrevistados que gostariam de falar sobre Luana e o impacto que ela teve em suas vidas. Um novo capítulo foi aberto no filme para que pudéssemos de fato acessar, com uma dose extra de emoção, depoimentos que trouxeram uma visão mais significativa e ampla da influência e inspiração que Luana teve sobre a vida de muitos.
 
E o que ela e o filme representam para o Brasil de hoje, cada vez mais preconceituoso e violento?
Luana representa o respeito que devemos ter por todos, especialmente por aqueles que fazem da própria história sua maior obra. Ela venceu batalhas e viveu tudo que ela quis viver. Se transformou e tornou-se referência para muitos travestis e LGBTs que se inspiram até hoje nas orientações e nas atitudes de Luana Muniz. Guerreira, brilhou das ruas aos palcos e será lembrada pelo seu caráter e legado ativista.
 
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Alysson Oliveira

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