Entrevistas

Camilo Cavalcante capta o impasse do continente em "King Kong en Asunción"

Por Neusa Barbosa

Publicado em 01/09/21 às 17h56

 
Diretor conhecido por seus alentados curtas e pelo longa A História da Eternidade (2014), o pernambucano Camilo Cavalcante compõe em King Kong en Asunción, grande vencedor em Gramado 2020, a crônica de um matador de aluguel (Andrade Jr.) que, chegando ao final de sua vida, faz um balanço de seus desacertos e afetos. Nesta entrevista a Neusa Barbosa, do Cineweb. o cineasta comenta as dificuldades da produção, filmada entre três países, suas intenções com um trabalho que tem o DNA da América Latina entre crise e resistência e avança sobre seus novos projetos. 
 
O projeto de “King Kong em Asunción” foi desenvolvido ao longo de 10 anos (2007-2017) e partiu de uma performance do ator Andrade Jr. Comente mais sobre esse início e a escrita do roteiro.
 
A gênese desse projeto teve início justamente em 2007, quando eu conheci o ator Andrade Jr. no Festival de Cinema de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Rapidamente fizemos amizade. Andrade então fez essa performance do homem-gorila e aquilo me impressionou e de certa forma foi a fagulha inicial para a história. Parte dessa imagem impactante, dessa performance, veio da própria figura do Andrade. Eu comecei a pesquisar, fui até Assunção, no Paraguai, que eu não conhecia, porque já me veio a ideia de fazer um filme sobre esse matador de aluguel em crise existencial. E aí fui a Assunção e achei a cidade muito cinematográfica. Escrevi o roteiro, que sofreu mudanças ao longo do processo. Depois, em 2015, a gente fez uma pesquisa de pré-produção e aí surgiu a ideia de alargar essa viagem. A princípio, toda a narrativa aconteceria no Paraguai, entre a região do Chaco e passando pela cidade e pela comunidade Menonitas de Filadélfia, que está no filme, e também chegaria até Assunção. Mas durante o processo de pesquisa, eu resolvi ampliar e a gente então fez esse trajeto de Assunção até o Salar de Uyuni - naquele momento, para saber se era possível, inclusive se tinha acesso.
 
É realmente uma viagem, são longos caminhos tortuosos que passam por várias regiões da Bolívia e do Paraguai, com muitas mudanças geográficas. Mas isso já acho que faz parte da viagem do personagem também, esse personagem cruza esses territórios e, ao mesmo tempo, a gente queria desde o início, tinha essa preocupação em permitir que a vida também entrasse no projeto. A gente não estava engessado, porque era um filme que a gente já partia desse pressuposto de registrar as paisagens e, ao mesmo tempo, fazer esse registro humano da América Latina. Então, o roteiro acaba se desenvolvendo sozinho. Mas o Andrade sempre participou de todas as etapas desse projeto. Infelizmente, ele faleceu em 2019 sem ver o filme finalizado e sem ter esse reconhecimento ao seu talento, à sua grande interpretação. Mas já agora, com o lançamento do filme nos cinemas, ele revive a cada exibição, ele revive luminoso na tela grande, com todo o seu brilho e a sua energia.
 
Por que houve toda essa demora?
 
O filme também demorou no processo de finalização, um pouco mais do que o previsto, inclusive por conta da complexidade da narração, em guarani. De início, era um texto em português, escrito por Natália Borges Polessa, a grande escritora que tem essa habilidade em transformar palavras e sentimentos e vice-versa com muita profundidade.Então, ela escreveu o texto em português, depois foi adaptado para o guarani por uma escritora paraguaia, Lilian de Souza, e finalmente foi gravado e foi personificado pela atriz Anna Ivanova, numa interpretação muito densa. Então, todo esse processo levou bastante tempo também para finalização do filme.
 
Como foi filmar nesses lugares?
 
Foi uma verdadeira aventura para toda a equipe, uma aventura mesmo porque tem um trajeto difícil, tem muitas vezes estradas que são inacessíveis e a gente precisa de uma logística e da estratégia de produção muito bem elaborada para conseguir percorrer esses espaços, fazer todo o percurso no tempo previsto e com o baixo orçamento que a gente tinha. Então foi uma estratégia, uma engenharia de produção e muito, muito eficiente, um planejamento muito grande, uma pré-produção muito bem amarrada. O filme foi todo feito com equipe pequena e com esse espírito de aventura de certa forma também. Por um lado, a dificuldade unia a equipe, todo mundo trabalhando numa mesma frequência em busca de contar essa história. Esse espírito de aventura impõe muitos desafios e ao mesmo tempo traz uma liberdade artística e criativa intensa, plena. Então foi um processo muito orgânico.
 
Filmado em três países Brasil Bolívia Paraguai o filme traz um certo sentimento da América do Sul nesse momento um continente fragilizado em crise social e política. Como você vê esse momento do continente  e do Brasil ?
 
Pois é, a gente hoje vê a catástrofe política, social, econômica e talvez a maior crise ética que a gente já tenha visto. E acho que isso tudo não é fruto do acaso, nem nasceu de uma hora para outra. Isso é fruto da nossa colonização perversa, violenta, preconceituosa e excludente, que vem ao longo de séculos massacrando povos indígenas. A questão agrária acaba provocando um banho de sangue. E o filme acaba refletindo essa questão. Também acho que esse filme é um grito poético-político-periférico, aí é que tem esse DNA latino-americano. Foi realizado com profissionais, técnicos, atrizes, atores, trabalhadores de logística dos três países, Brasil, Paraguai e Bolívia. Tem a trilha sonora do Shaman Herrera, que é um músico da Argentina que vive na Patagônia, então é um filme que respira a América do Sul, a América Latina. Nesse momento, a gente está num fundo de um poço, talvez no pior momento da nossa história, com um governo fascista e mentiroso. E é muito delicado esse momento que a gente está passando, sem dúvida. É preciso discutir, é preciso falar para que essa história não volte quando a gente sair dessa, porque vai sair. E que a história não volte a se repetir. Porque é isso que a gente tomou como lição, que o mal está pairando e a gente tem que estar sempre atento e forte.
 
É uma história muito centrada na masculinidade. Como o Andrade Jr. contribuiu para o papel?
 
Este é um filme sobre homens que ao mesmo tempo que são vítimas, são algozes. São vítimas ao mesmo tempo de um sistema perverso, de uma estrutura perversa. E é sintomático que esse personagem esteja fazendo uma reflexão profunda sobre o seu existir, sobre o que ele foi e o que ele se tornou, como a falta de afeto é bestial. Então acho que é um filme ao mesmo tempo que tem um lado masculino desse universo de homens decadentes e ao mesmo tempo angustiados, que por trás de uma carapaça forte têm uma fragilidade imensa. Ao mesmo tempo, é um filme que fala de afeto ou da falta de afeto ou de como quando não existe afeto se cria um cunho, esse que é preenchido pelo ódio. Então a gente traz essa discussão, é um filme que questiona que bicho existe dentro de nós. Andrade, como já falei, foi a força motriz desse filme, ele contribuiu em todos os momentos durante esse tempo todo de espera da escrita do roteiro até a gente conseguir recursos. No primeiro momento, foi do Fundo de Cultura do Estado de Pernambuco. No segundo momento, da Ancine.
 
Mas até isso se concretizar se passou bastante tempo e Andrade sempre foi o maior incentivador. Ele sempre estava perguntando, incentivando e investigando todo o processo, em todas as etapas. Ao contrário de A História da Eternidade, muito focada no universo feminino, neste filme a presença das mulheres é muito fantasmagórica, à parte mesmo da narração da atriz Ana Ivanova.
 
Qual foi sua intenção com essa narração e com a escolha desta língua em particular?
 
A intenção é justamente colocar o guarani. Em primeiro plano, a sonoridade, a musicalidade, a oralidade, toda essa força dessa língua ancestral em primeiro plano. Um pouco por conta de que é um povo que vem sendo massacrado ao longo dos séculos. Então a ideia foi justamente colocar em primeiro plano a voz e que essa voz ecoe poderosa. Esta interpretação da Anna Ivanova acaba trazendo uma atmosfera mística para o filme e fortalece essa camada literária que o filme pretende. A camada visual e a camada sonora do filme dialogam com essa camada literária, essa narração onisciente, onipresente, que tudo sabe, que tudo viu e que tudo verá, que anuncia passado, presente e futuro, possibilitando assim a ampliação das interpretações. Assim se carrega o espectador para outros momentos da narrativa, permite abraçar essa possibilidade de cada espectador poder enxergar ali um filme diferente, de acordo com a sua a sua própria bagagem e sentimento.
 
Explique mais sobre a participação da escritora Natália no texto da narração. Vocês dois criaram juntos?
 
O roteiro tinha um texto-guia de narração, com algumas informações importantes acerca do personagem, da sua trajetória e dos acontecimentos. Mas a Natália então foi convidada para escrever essa narração e, com todo o seu talento e habilidade de transformar palavras em sentimentos, ela escreveu esse texto muito denso, muito poético e ao mesmo tempo intrigante. Aquela seria a voz de uma entidade para simbolizar a morte, talvez a única companheira fiel do personagem do velho matador, alguém que ele conhece de perto desde criança e que o acompanha desde então. Então se precisava realmente de um texto denso, que tivesse uma literatura bem construída.
 
Você está trabalhando novos projetos? Pode falar sobre eles?
 
Sim, estou trabalhando em novos projetos no momento. Agora em setembro vou filmar um documentário de longa-metragem chamado Aurora - refúgio de todos os mundos, que é sobre a Rua Aurora, no centro de São Paulo. Uma rua que nos anos 30 e 40 era frequentada pela aristocracia paulistana e nos anos 70 e 80 foi o reduto da movimentação cinematográfica da Boca do Lixo. Hoje é uma rua na área de exclusão, abandonada pelo poder público, como boa parte do centro e que abriga pessoas e histórias de todo o mundo. Então, essas histórias nos interessam e esse é o foco do documentário.
 
Também estou em processo de finalização de um longa-metragem de ficção chamado O palhaço de cara limpa, que foi filmado em 2016 e terminamos de filmar agora, no início desse ano. É a história de um ator que está em crise conjugal e volta a morar com a mãe e está no momento também muito delicado, sem palcos para atuar. Ao mesmo tempo, ele está planejando a criação de um personagem chamado “palhaço de cara limpa”, inspirado nas leituras da poética do devaneio de Gastão Bacellar. E isso tudo ao mesmo tempo em que o Brasil naufraga na maior crise política, social e ética da sua história e tem como pano de fundo justamente o golpe e todas as suas consequências até agora.















Neusa Barbosa

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