Entrevistas

Em “Azor”, Andreas Fontana investiga a relação entre dinheiro e o poder na ditadura argentina

Por Alysson Oliveira

Publicado em 14/12/21 às 17h27

Fabrizio Rongione, como o banqueiro Yvan de Weil, em cena de "Azor"  (Crédito: Divulgação/Vitrine Filmes)
 
De um apartamento na Espanha, o roteirista e diretor suíço Andreas Fontana abaixa a cabeça levemente, como quem presta muita atenção ao que estão lhe dizendo, toda vez que uma pergunta é feita. Depois, na janelinha do Zoom, ele levanta o rosto, olha para a câmera e responde com calma e segurança. O cineasta, responsável por um dos filmes mais elogiados da temporada, Azor, não é de falar muito, por isso, tudo o que diz é bastante significativo. Seu longa aborda um tema espinhoso, mas que está no ar até hoje: a delicada relação simbiótica entre capital internacional, na forma de bancos suíços privados, e a elite argentina, o poder e Igreja Católica, na ditadura militar da Argentina.
 
O protagonista do longa é um banqueiro suíço, Yvan de Weil (Fabrizio Rongione), que vem para a Argentina depois do desaparecimento do seu sócio, deixando clientes – todos e todas extremamente ricos – em polvorosa. Direta ou indiretamente, essas pessoas estão ligadas à ditadura militar e dela se aproveitam, seja com o poder e/ou dinheiro. Fontana, que viveu um tempo na Argentina, é neto de banqueiro e conhece esse mundo do movimento do grande capital privado de perto.
 
“É um mundo muito poderoso, com seus códigos próprios, sua linguagem e também uma cultura muito discreta. Há uma relação muito próxima e íntima entre banqueiros e seus clientes, e vi nisso potencial para um filme. Também tenho uma relação muito próxima com a Argentina. Filmar um banqueiro no banco não teria muita graça, por isso coloquei o personagem como quem sai para filmar o mundo.”
 
 Andreas Fontana, em premiação nos EUA (Crédito: Divulgação/Vitrine Filmes)

 
Em sua pesquisa para Azor, Fontanas percebeu que precisava visitar o Círculo de Armas, em Buenos Aires, uma espécie de clube privado para os homens mais ricos do país, conhecido por “formar lideranças”. Para poder entrar, o diretor conta que precisava ser convidado por dois membros. Ele acabou conseguindo. “Quando entrei, fiquei impressionado. Tudo ali girava em torno do dinheiro. Como eu sou neto de banqueiros, as pessoas achavam que eu também o fosse. Havia vários banqueiros ali. Chegou um bispo e foi direto conversar com um deles, sobre dinheiro, é óbvio.” A cena é reproduzida praticamente ipsis literis no filme.
 
Para o roteiro, Fontanas trabalhou em parceria com o argentino Mariano Llinás, roteirista e diretor do monumental La Flor, uma saga de mais de 13 horas. Juntos construíram, ao longo de alguns anos, a narrativa e, o mais importante para o diretor, o perfil do protagonista. “Ele é um enigma. Não o queria fazer um personagem cínico, seria muito óbvio, por isso, deixamos lacunas. Gosto de pensar que o próprio público vai tirar suas próprias conclusões a respeito de seu rosto no final do filme. Mas, de qualquer forma, o mundo dos banqueiros é marcado pela performance e a rivalidade.”
 
Apesar de ser um filme histórico, Azor tem também incorpora um tom de suspense, de policial. Fontanas admite que tem uma queda por romances de detetive, mas nem sempre quer saber o desfecho do mistério. Ele vê um roteiro cinematográfico como um pretexto para explorar esse universo. “A tensão desse roteiro está, acima de tudo, naquilo que atrai a curiosidade das pessoas, mas que não é necessariamente resolvido. É algo típico da literatura fantástica e porteña de autores como Borges e Cortázar. Quando mais próximos estamos do centro do mistério, mais longe estamos de o resolver.”
 
Azor, cujo título peculiar, explicado no filme, vem de um léxico usado por poucas pessoas (de dinheiro), “umas quatro ou cinco famílias”, foi exibido em diversos festivais e lançado em vários países, recebendo, quase que unanimemente, críticas bastante elogiosas. Mas na Argentina, conta Fontanas, foi diferente. “Foi complicado mostrar o filme lá. Sou um suíço e o filme é sobre o país deles. E não é um retrato muito positivo. Como esse sujeito chega aqui e conta essa história sob o nosso ponto de vista? Alguns críticos até gostaram, mas não muitos.”
 
Em seu próximo filme, o diretor explica que novamente irá mergulhar num momento histórico e num ambiente marcado pela tensão. “Agora será sobre diplomatas e sua relação com Genebra. É uma nova investigação que estou fazendo. O que me intriga é encontrar uma maneira de criar interesse, uma narrativa, para transmitir uma cultura profissional muito específica.”
 
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Alysson Oliveira

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