Entrevistas

Com trajetória peculiar, documentário resgata a figura de Leila Diniz

Por Alysson Oliveira

Publicado em 17/12/21 às 14h00

 A diretora e atriz Ana Maria Magalhães (de vestido preto) ao lado da amiga Leila Diniz, tema do documentário (Crédito: Divulgação)

Por diversos motivos, o documentário Já que ninguém me tira para dançar é caro ao coração da atriz e cineasta Ana Maria Magalhães, que o dirige. Primeiro, por ser sobre sua grande amiga, a também atriz Leila Diniz, morta em 1972. Este também é um longa com uma trajetória complicada. Começou a ser feito no começo dos anos de 1980, mas só agora chega ao público. Depois de estrear na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, em outubro passado, abrir o Festival de Brasília, na última semana, o filme terá sua primeira sessão carioca no Festival do Rio, no sábado (18), às 17h30, no Cinépolis Lagoon; e no domingo (19), às 21h15, no Estação NET Rio.
 
Nessa entrevista, a diretora conta sobre os caminhos que o filme percorreu em quase quatro décadas até finalmente poder ser exibido nos cinemas, além de falar sobre sua amizade com Leila Diniz e a importância da atriz para o país até hoje.
 
Esse filme tem uma trajetória bastante particular, a senhora poderia contar um pouco sobre isso?
O filme nasceu de um convite do Centro Cultural Cândido Mendes para a I Mostra Vídeo Rio, na passagem dos dez anos de desaparecimento da atriz Leila Diniz. Relutei em aceitar devido à minha proximidade com a Leila. Porém, segundo o autor do convite, a família de Leila só aceitaria se eu dirigisse. Entendi que me coube a missão de preservar a memória da minha maior amiga e aceitei o desafio.
Mas, no segundo dia de gravação, o promotor da Mostra me avisou que não conseguira levantar os recursos necessários e se retirava do projeto. Walter Salles tinha emprestado a câmera ao fotógrafo José Guerra. A equipe tinha recebido metade dos salários e aceitou continuar as gravações sem receber o restante do pagamento. E assim prosseguimos. 
Era uma experiência nova gravar um documentário em vídeo para mim e outros membros da equipe, que vínhamos do cinema.
 
O processo de edição do filme também não foi simples, não?
A edição foi tumultuada porque não havia recursos para aluguel de equipamento e eu ia de ilha em ilha carregando as fitas U-Matic e buscando permutas. Até que recebi um telefonema do pessoal do Olhar Eletrônico. Souberam que nós estávamos gravando no Rio, um verdadeiro acontecimento na época, e convidaram o documentário a participar da 2ª Mostra Nacional de Vídeo, em São Paulo.
Como o vídeo estava parcialmente editado, o Olhar Eletrônico se propôs a ceder a ilha para terminarmos o trabalho. Fernando Meirelles e Marcelo Machado se revezaram na edição.
Essa versão ficou guardada desde 1982 porque ainda não havia tecnologia, pelo menos em nosso país, para transferir o vídeo para outro meio que pudesse ser exibido em salas de cinema.
 
E quando foi possível retomar esse material?
Em 2015, solicitei a digitalização do vídeo na Cinemateca Brasileira e o encarregado do trabalho, Fabio Fraccarolli, que eu conhecia pela ótima restauração de A Idade da Terra, de Glauber Rocha, entrou em contato comigo para dizer que eu deveria restaurar o filme porque ele estava em processo de deterioração e iria morrer. Ele me falou da importância do filme e me convenceu a procurar salvá-lo pela restauração.
Naquele ano, o Fabio e eu fizemos vários procedimentos no sentido de preparar a restauração. Busquei imagens da Leila nas capas de revista em arquivos, levantamos os filmes de que Leila participara que teriam melhores condições técnicas de exibição etc. Ao final do ano, percebi que não teria como prosseguir com meus próprios recursos.
Finalmente, em 2020, decidi que este seria o meu próximo projeto. O Itaú Cultural soube e me propôs apoiá-lo. Convoquei o cineasta Lino Meirelles, que já havia demonstrado interesse na restauração do filme, e o Metrópoles entrou como coprodutor.
 
O que a levou na época a fazer o filme?
A consciência de que a memória dela deveria ser preservada e difundida para que a sua passagem por este planeta seja valorizada como merece por tudo o que ela fez. Fui convocada e cumpri o compromisso de transmitir o legado da Leila às novas gerações.
 
 O que representa poder, finalmente, apresentar o filme ao público?
Representa uma grande vitória, a satisfação de ter cumprido o objetivo de difundir a memória da Leila, que estava relegada ao esquecimento, a retribuição às transformações que ela promoveu, ao caminho que abriu para as mulheres e, particularmente, ao aprendizado que generosamente me ofertou na passagem da adolescência para a idade adulta. Em nome da nossa grande amizade, é também uma homenagem ao afeto que dedicou a todos e todas que conviveram com ela. 
 
Qual a sensação de rever o filme agora?
Dificilmente me emociono com meus próprios filmes, mas nesse caso, por diversas vezes tenho vontade de chorar. Porque a saudade é imensa.
 
Quais as lembranças que a senhora tem de Leila Diniz? Esse é um tema bastante forte no filme, a amizade de vocês.
Tenho as melhores lembranças de Leila. Sua alegria, suas tiradas, seu afeto, a cumplicidade com as mulheres, a ausência de qualquer preconceito, sua honestidade e integridade. Parece pouco mas é muito raro encontrar pessoas assim na vida. Leila me acolheu na adolescência e me ensinou muitas coisas a respeito de ser mulher. Ela permanece viva em mim.
 
E resgatar a figura de uma mulher como Leila Diniz, o que representa para o Brasil de hoje? 
Leila Diniz representa muito no Brasil de hoje. Porque vivemos um retrocesso sem precedentes. E não podemos deixar que os avanços duramente conquistados sejam perdidos. Por isso, é bom que a juventude brasileira tome conhecimento da personalidade, do caráter, do pensamento, de suas ações e seu modo de viver. Leila ainda tem muito a dizer.















Alysson Oliveira

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