34ª. Mostra Internacional de São Paulo

Arte de rua e limites da narrativa são temas de documentário

Rodrigo Zavala

Reconhecido como gênio por alguns, chamado de vândalo por outros, o misterioso inglês Bansky se tornou um dos maiores artistas de rua da atualidade. Por fazer suas intervenções em espaços públicos, o artista jamais mostra o rosto, o que, por si só, já cria em torno dele uma aura de fascínio e a certeza de que suas obras situam-se no limite do crime contra o patrimônio público.

Depois de anos de arte nas ruas e exposições polêmicas, Bansky volta-se ao cinema com o documentário Exit through the Gift Shop, que tem sua última sessão nesta sexta (29). Uma produção tão sarcástica e provocativa quanto seus próprios trabalhos – como a pomba que ele pintou vestida com colete à prova de balas na barreira israelense erguida na Cisjordânia.

Já na primeira cena, sem mostrar o rosto e com a voz alterada eletronicamente, o artista faz uma revelação risível: “Ele queria fazer um documentário sobre mim, mas a vida dele é mais interessante do que a minha”. Este é o ponto em que Bansky nos apresenta o real personagem do filme, o francês Thierry Guetta.

Com uma câmera na mão, o excêntrico e um tanto desequilibrado francês passou anos perseguindo grafiteiros e artistas de rua, filmando suas intervenções artísticas. Tido como documentarista - o que jamais foi -, acaba fazendo parte da cena da arte de rua, apesar de nunca apresentar o tal documentário.

As imagens captadas por Guetta são importantes por dois motivos simples: são o único registro das obras de inúmeros artistas (paredes são repintadas e paineis são arrancados); e porque mostram o início de um movimento, que atingiria seu boom no início da década de 2000. Nessa época, peças que até então eram vistas como depredação, passaram a ser leiloadas por colecionadores por centenas de milhares de dólares.

Por uma coincidência do destino, Guetta conhece Bansky e se tornam amigos.Este é o início de uma mudança na vida do francês que, de mero captador de imagens, torna-se um celebrado artista conhecido atualmente sob o pseudônimo Mr. Brainwash (Sr. lavagem cerebral). Uma obra sua chegou a estampar a capa de um CD da Madonna, o disco Celebration, de 2009.
 
Bansky então constroi uma narrativa com críticas e ironias a si mesmo, ao trabalho de Guetta e aos que caíram na farsa do artista que se inventou, Mr. Brainwash. “Talvez seja um gênio, talvez tenha tido sorte, talvez seja uma piada”, afirma Bansky em seu filme.
 
Quando foi exibido no Festival de Cannes este ano, os jornalistas esperavam que a coletiva marcada por ele pudesse revelar o que de fato ele quer provar com o filme. Se Mr. Brainwash é uma farsa ou se o próprio filme é uma grande piada. Como desmarcou, o que era esperado de uma pessoa avessa a mostrar o rosto, o espectador e a própria crítica têm duvidas sobre o que está por trás do filme.  

O que se pode ter certeza é de que se trata de um excelente documentário sobre arte de rua, tanto quanto é uma aula bem-humorada sobre o tema. "É uma história verdadeira, com imagens reais. Eu nunca poderia ter escrito um roteiro tão engraçado”, afirmou Bansky em nota à imprensa em Cannes, que acusava seu filme de pura invenção.
 
Uma curiosidade: recentemente, um muro pintado por Bansky em Londres foi leiloado por mais de 400 mil libras. Como o muro pertence a um terceiro – que não permitiu a obra -, o comprador deverá extrair parte da parede e colocar outra em seu lugar. Mas, a dúvida que permanece é: se um artista pinta o muro de sua casa, quem é o dono da obra? 
 
ÚLTIMA SESSÃO:
Sexta (29) – 19h50
Espaço UNIBANCO 3

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