34ª. Mostra Internacional de São Paulo

Do realismo à estilização em dois filmes franceses no primeiro dia da Mostra

Alysson Oliveira

Mimi Le Meaux, Dirty Martini, Kitten on the Keys, Julie Atlas Muz... Não conhece essas figures? Benvindo ao mundo do neoburlesco, uma combinação entre performance, plumas, paetês e striptease. Esse é o mundo dos personagens de Turnê, dirigido por Mathieu Amalric, mais conhecido por seu trabalho como ator em filmes como O escafandro e a borboleta e Conto de Natal – e que aqui também defende o principal papel masculino. O filme tem sua primeira sessão na 34ª Mostra nesta sexta (22), no Reserva Cultural às 22h.
 
Premiado em Cannes pela direção de Turnê, Amalric, que co-assina o roteiro, cria uma espécie de terra de ninguém entre o Velho e Novo Mundo, colocando em cenas atrizes/performers/strippers norte-americanas, filmando-as com um fôlego documental em viagem pela França, onde se apresentam em cabarés, para alegria de homens solitários.
 
Joachim (Amalric) é empresário dessas mulheres, e, embora cercado por pessoas o tempo todo, ele solitário porque apenas seu ego tem espaço em sua vida. Nem quando seus filhos pequenos (Simon Roth, Joseph Roth) o visitam ele se desliga de seus interesses próprios.
 
O lado diretor de Amalric busca inspiração direta em John Cassavetes, especialmente em A morte do bookmaker chinês, mostrando o que acontece com os artistas quando os holofotes estão desligados. Por isso, Turnê é carregado da melancolia que atinge aquelas pessoas acostumadas com o brilho e o glamour no momento em que precisam tirar a maquiagem e o figurino e se encararem no espelho. Não por acaso, a primeira cena mostra exatamente isso – as artistas desmontando sua roupa de cena. O que sobra é o tédio – das personagens, entenda-se, não do filme.
 
Nos créditos finais, quando a música cantada por The Sonics fala sobre um cara que cai na estrada porque procura amor, dá-se ali algumas pistas sobre Joachim – sempre cercado de belas mulheres, mas, mesmo assim, solitário.
 
Se o filme de Amalric lida com um registro realista, já Micmacs – Um plano complicado, de Jean-Pierre Jeunet, como os outros filmes do diretor, parece acontecer num universo paralelo, muito parecido com o nosso, mas mesmo assim, bastante estilizado. A primeira sessão do filme na Mostra acontece também na sexta, no Cine SABESP, às 20h20.
 
Desde sua estreia, em longas com Delicatessen (1991), codirigido com Marc Caro, Jeunet construiu uma carreira sólida – apesar de altos e baixos - e conquistou uma legião de fãs desde O fabuloso destino de Amélie Poulain (2001) – que ficaram um pouco decepcionados com “Eterno amor” (2004). Agora, o diretor retorna aos ‘filmes fofos’, com uma história de vingança.
 
Desde pequeno, a vida de Bazil (Dany Boom, de A Riviera não é aqui) não teve muita sorte. Primeiro, seu pai morreu ao pisar numa mina no Saara. Anos mais tarde, ele próprio é atingido por uma bala perdida enquanto, na locadora onde trabalha, via pela milésima vez “À beira do abismo”, de Howard Hawks. Para resolver o que fazer com ele, os médicos tiram a sorte com uma moeda e decidem deixar a bala alojada no crânio.
 
Estranhamente – se bem que tudo que é estranho deve ser levado a sério nos filmes de Jeunet –, a sensibilidade de Bazil fica mais aguçada depois do incidente. Acaba descobrindo a empresa que fabricou a mina e a bala que o acertou são a mesma. Agindo como o protagonista de À beira do abismo, descobre uma série de detalhes sobre os dirigentes da firma – um deles é Nicolas Thibault de Fenouillet (Andre Dussollier, de “Ervas Daninhas”), cujo hobby é colecionar partes do corpo de celebridades mortas. Atualmente, ele tenta comprar um dos olhos de Mussolini.
 
Depois de se unir a uma trupe circense, Bazil arma um plano de vingança com a ajuda de seus novos amigos, que inclui uma contorcionista (Julie Ferrier, que também está em Turnê) e um especialista em cofres (o veterano Jean-Pierre Marielle, de O Código Da Vinci).
 
De certa forma, Micmacs – Um plano complicado serve como uma releitura de “À beira do abismo”, com Bazil bancando o detetive. Aqui, Jeunet reduz os excessos visuais, deixando espaço para que os personagens e as situações aconteçam de forma mais leve. O que falta talvez seja um protagonista tão sedutor quanto Amélie Poulain.
 
 Exibições:
 
Micmacs – Um plano complicado
 
CINE TAM - SALA 4 - 27/10/2010 - 21:00 - Sessão: 575 (Quarta)
ESPAÇO UNIBANCO POMPÉIA 1 - 01/11/2010 - 22:20 - Sessão: 1107 (Segunda)

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