34ª. Mostra Internacional de São Paulo

Manoel de Oliveira, Sofia Coppola e até bicicletas garantem ecletismo da 34ª Mostra

Alysson Oliveira

Manoel de Oliveira, Sofia Coppola e até bicicletas garantem ecletismo da 34ª Mostra

Se alguém achava ruim ter de andar, digamos, do CineSESC ao Unibanco Arteplex a pé em 10 minutos para não perder a próxima sessão, na 34ª Mostra Internacional de Cinema, este ano, será mais fácil fazer o trajeto de bicicleta. Uma parceria entre o evento, a Sabesp e a ONG Parada Vital irá disponibilizar bikes para os frequentadores do festival. É preciso fôlego e atenção redobrada – afinal, o circuito de cinemas inclui várias salas na região da Paulista –, mas, para os mais preparados, pode até valer a pena.

Este é apenas um dos atrativos – talvez o menos cinematográfico – da festival, que começa nesta quinta exibindo o novo trabalho do veterano Manoel de Oliveira, O estranho caso de Angélica. Coproduzido pela Mostra, o filme abriu a seção Un Certain Regard, do Festival de Cannes, em maio passado, trazendo no elenco o neto do diretor, Ricardo Trêpa, a espanhola Pilar López de Ayala e Leonor Silveira. A história centra-se num fotógrafo que fica obcecado com a imagem de uma moça que morreu. O filme faz uma ponte entre o cinema mudo e a modernidade.
 
No entanto, para atrair o público mais variado, a Mostra tenta combinar o mais amplo espectro de produções. Para cada Manoel de Oliveira, Abbas Kiarostami (Cópia Fiel) e Jean-Luc Godard (Socialismo), há uma Sofia Coppola (Um Lugar Qualquer), Robert Rodriguez (Machete) e Jean-Pierre Jeunet (Micmacs – Um plano complicado). Também não podem faltar os premiados nos principais festivais do mundo, como Cannes (Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas, de Apichatpong Weerasethakul), Veneza (Um lugar qualquer, de Sofia Coppola) ou no Rio (VIPS, de Toniko Mello).
 
Deixando de lado os filmes que, mais cedo ou mais tarde, entram em circuito comercial, um dos grandes prazeres da Mostra é a descoberta de trabalhos pouco conhecidos ou com poucas chances de chegar aos cinemas. Um deles é Um dia na vida, do premiado documentarista Eduardo Coutinho. Com uma sessão única, promessa de ser uma das mais disputadas da programação, o longa é uma compilação de material gravado da pesquisa que o diretor fez para seu próximo filme.
 
Com poucas chances de chegar ao cinema também são os longos Mistérios de Lisboa, de Raúl Ruiz, e Carlos, de Olivier Assayas. O primeiro tem 266 minutos e o segundo, 330. São obras monumentais, não apenas pela duração, mas também pela forma épica com que tratam seus temas, o primeiro adaptando obra de Camilo Castelo Branco, o segundo, traçando uma biografia do temível terrorista Carlos, o Chacal.
 
As retrospectivas desta edição trazem o cinema do norueguês Bent Hammer, exibindo sua filmografia completa, como Histórias de Cozinha e Factótum, além de seu mais recente trabalho, Uma casa para o Natal. A outra homenageada é a atriz alemã Hanna Schygulla, musa de Rainer Werner Fassbinder, vista recentemente num filme de Fatih Akin, Do Outro Lado. A Mostra exibirá diversos filmes que Hanna dirigiu, como o documentário Alicia Bustamante, sobre a atriz e diretora cubana.
 
Do comercial ao cult made in Brazil
 
A seleção brasileira da Mostra também faz combinações ecléticas e abre espaço para filmes que vão do cult àqueles que buscam comunicar com um público maior. Documentários, ficções e experimentações traçam um painel da produção nacional recente.
 
Entre os documentários, além de Coutinho, o festival também traz alguns títulos que despertam a curiosidade, como Comercial, de Alex Miranda, que aborda a produção publicitária no Brasil; Filhos de João, Admirável Mundo Novo Baiano, de Henrique Dantas, sobre o grupo Novos Baianos; e Diário de uma busca, de Flávia Castro, em que a diretora investiga a vida e morte de seu pai, morto misteriosamente em 1984, e o cotidiano dos militantes de esquerda dos anos de 1960 e 1970.
 
Um dos mais aguardados entre as ficções, é VIPS, que rendeu a Wagner Moura o prêmio de melhor ator no Festival do Rio, há duas semanas. Nele, o ator deixa de lado seu personagem do momento, o Capitão Nascimento, e encarna uma figura real, um sujeito que parece estar em eterna crise de identidade e que assume o nome e a vida de outras pessoas – como um dos herdeiros da companhia aérea Gol.
 
Também baseado numa figura real, Boca do Lixo traz Daniel de Oliveira como Hiroito de Moraes, frequentador da região paulistana que dá título ao filme, um homem nascido na classe média cuja vida muda quando ele é acusado da morte do seu pai e se torna um dos bandidos mais procurados da capital paulistana. Já Bróder, de Jefferson De, premiado em Paulínia e Gramado, tem Caio Blat como seu protagonista. Filmado na periferia de São Paulo, o longa faz um belo estudo sobre a amizade, o crime e a ascensão social.
 
Por outro lado, o mineiro Cao Guimarães mais uma vez se supera com seu experimentalismo poético. Com Ex Isto, inspirado num poema de Paulo Leminski, o diretor investiga o que poderia ter acontecido se René Descartes tivesse vindo para o Brasil. O filósofo francês é interpretado pelo ator baiano João Miguel, de Estômago.
 
Não só de filmes, porém, vive a 34ª Mostra. Wim Wenders, além de assinar um dos pôsteres do Festival, exibe no MASP 23 fotografias inéditas feitas durante viagens por cidades como São Paulo, Salvador, Tóquio e Berlim. A exposição leva o título de “Lugares, Estranhos e Quietos”. O outro pôster é assinado por Akira Kurosawa – cujo centenário de nascimento é comemorado neste ano. Oitenta storyboards do diretor japonês, que morreu em 1998, também serão exibidos no Instituto Tomie Ohtake, na exposição “Kurosawa – Criando imagens para o cinema”.
 
Para mais informações sobre bicicletas, acesse o site da Mostra, www.mostra.org

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