34ª. Mostra Internacional de São Paulo

“Corre em mim um sangue latino”, diz Hanna Schygulla, homenageada na Mostra

Alysson Oliveira

Hanna Schygulla parece não ser apenas uma. Ela é várias. Há primeiro a atriz que conhecemos e que por ela fomos seduzidos – especialmente nos anos de 1970 e 1980, com filmes como O casamento de Maria Braun e Lili Marlene,  ambos resultados de sua colaboração com o diretor alemão Rainer Werner Fassbinder, com quem teve uma relação tumultuada mas prolífica. Foram 23 filmes em 12 anos, até a morte dele em 1982. Dessa parceria, aliás, nasceu o primeiro trabalho como diretora. “Foi em 1977, quando ele me propôs codirigir um curta sobre uma mulher esquizofrênica que sonhava estar grávida de uma cidade, que era Berlim. Era uma metáfora para a Berlim unificada. Mas Fassbinder morreu antes de fazermos esse trabalho, e antes da cidade se unir”, disse a diretora em entrevista ao Cineweb.

 
Hanna morava, na época, numa comunidade artística que a incentivou a tocar o projeto sozinha. O resultado é Protocolo dos Sonhos” que, ao lado de outros trabalhos, faz parte da programação da 34ª Mostra, que homenageia a alemã nascida em 1943, em Königshütte, que hoje é Chorzów e faz parte da Polônia. O lado diretora de Hanna conta que só realiza um filme quando lhe é muito pessoal – exemplo disso é o documentário Alicia Bustamante, sobre a atriz e diretora cubana, companheira da alemã desde o começo dos anos de 1990, quando se conheceram ao fazer uma novela de televisão, Me alugo para sonhar, baseada em Gabriel García Marquez, com direção de Ruy Guerra.
 
Para Hanna, recordar do tempo em que esteve em Cuba é fazer uma viagem a uma época doce de sua vida. “Conheci o García Marquez em Paris acompanhado do [escritor e roteirista] Jean-Claude Carrière. Depois, quando fui para Cuba rodar a novela, descobri em mim um sangue latino. Sou muito próxima a esse continente”. Além de viagens à ilha, Hanna também já foi à Argentina e ao Brasil, onde se apresentou com sua amiga Maria Bethânia, em 2002. O lado cantora da alemã também é forte em sua personalidade. Chegou a gravar um CD em 2003, com músicas de Janis Joplin e Billie Holiday. “Desde criança gosto de cantar. Cantei no cinema em Lili Marlene. A música sempre esteve presente em minha vida”.
 
De sua passagem por Cuba, Hanna traz mais frutos do que passeios pela Argentina e Brasil. O longa Alicia Bustamante é um retrato pessoal que a alemã fez da diretora e atriz cubana ao longo dos anos. “Eu queria captar a personalidade pura da minha companheira. Não tínhamos bem um esquema de filmagem. Eu filmava quando queria, quando achava que devia, que valia a pena. Em muitas cenas eu nem tinha um cinegrafista, eu mesma fazia a câmera.”.
 
Um quê de cineasta sempre existiu em Hanna, mas ela conta que raramente deixava isso aflorar. “Quando alguém me dirigia em cena, eu imaginava como eu faria aquilo se fosse a diretora. Nem todo mundo, porém, gosta de receber sugestões de atores, então eu guardava isso para mim. Pode-se dizer que eu não ousava dirigir. Agora, só faço quando acho que vale muito a pena”.
 
Entre esses diretores com quem Hanna trabalhou estão, além de Fassbinder, Jean-Luc Godard (Passion), Amos Gitai (Golem, o jardim de pedras, Terra Prometida), Fatih Akin (Do outro lado) e Marco Ferreri (A estória de Piera, que lhe valeu o prêmio de interpretação em Cannes de 1983). Agora, Hanna só sai de sua casa em Paris para fazer um filme quando acha que vai lhe acrescentar algo à vida. Recentemente, acabou de filmar uma adaptação de “Fausto”, dirigida pelo russo Aleksandr Sokurov. “É uma releitura do clássico. O filme é sobre uma mulher que diz ser casada com Mefisto, mas ele não quer saber dela. Ela é uma pessoa estranha, não se encaixa na vida do vilarejo onde mora. Ninguém sabe se é louca ou provocadora”.
 
Hanna aceitou fazer o filme por considerar Sokurov um dos grandes cineastas de nosso tempo. “Ele sempre tem algo de relevante a dizer, além de ser capaz de criar imagens belíssimas, cheias de poesia. Ele filma com muita atenção aos detalhes. No set, dizia para as meninas que deviam prestar atenção em mim, eu teria muito a ensinar”, conta orgulhosa. Ela diz também que o diretor fala inglês, mas é muito tímido, então foi necessária a ajuda de um tradutor para a comunicação. “Mas estávamos tão em sintonia, que, às vezes, nem precisava traduzir”.
 
Para o futuro, a alemã prepara um filme com uma diretora estreante suíça, na qual fará o papel de uma mãe com problemas emocionais. Ela também gostaria de ser dirigida pelo francês Xavier Beauvois, com quem contracenou em Aux Petits Bonheurs, de Michel Deville, em 1993. O mais recente trabalho de Beauvois, Homens e deuses, ganhador do Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes este ano, também faz parte da seleção da Mostra. “É um filme extremamente relevante. Fez muito sucesso na França, onde levantou muita discussão. Acredito que isso mostra vivermos numa época em que as pessoas necessitam de uma indicação moral”, comenta a atriz.
 
Por fim, além das faces atriz, diretora e cantora, o público da 34ª Mostra poderá conhecer, na noite de quarta, o lado mestra de Hanna que, ao lado de Alicia, dará uma master class na FAAP, a partir das 19h, depois de uma sessão do documentário Alicia Bustamante. A alemã confessa estar ansiosa, mas, modestamente, um pouco preocupada. “Será que vai alguém? Estou curiosa para conversar com o público”.
 
ALICIA BUSTAMANTE
UNIBANCO ARTEPLEX 4
Sessão: 1128 (Terça)
02/11/2010 - 17:40
 
FAAP
Sessão: 1294 (Quarta)
03/11/2010 - 19:00
 
PROGRAMA HANNA SCHYGULLA
UNIBANCO ARTEPLEX 4
Sessão: 1127 (Terça)
02/11/2010 - 16:00
 
FAAP
Sessão: 1293 (Quarta)
03/11/2010 - 15:00

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