34ª. Mostra Internacional de São Paulo

A veia cômica de Isabelle Huppert e a lembrança de Jacques Tati

Alysson Oliveira

A veia cômica de Isabelle Huppert e a lembrança de Jacques Tati
Copacabana, de Marc Fitoussi, e o desenho O Mágico, de Sylvain Chomet, representaram o cinema francês fora das mostras competitivas dos principais festivais internacionais este ano. O primeiro foi destaque na Semana da Crítica, em maio passado em Cannes, o segundo, no Festival de Berlim, em fevereiro.
 
A comédia Copacabana tem na atriz Isabelle Huppert e nos diálogos sagazes o seu ponto forte. Estamos acostumados a vê-la sofrendo – e ela faz isso como ninguém. Na tela, ela é capaz de sangrar, metafórica e realisticamente. Aqui, no entanto, está em outra chave, a da comédia, numa personagem cuja foto poderia estar no dicionário ao lado da definição da expressão “sem noção”. Seu nome é Elizabeth, que a faz parecer séria demais, “como a Rainha da Inglaterra”, por isso prefere seu apelido Babou. Mas suas excentricidades podem ser dignas de uma rainha.
 
Sem trabalho fixo e levando uma vida um tanto boêmia, ela contrasta com sua filha, Esméralda (interpretada pela filha de Isabelle, Lolita Chammah), uma garota certinha que trabalha como garçonete e está de casamento marcado com um burguês. A relação entre as duas é tensa, mas o diretor, que também assina o roteiro, carrega para a comédia, com leveza e perspicácia.
 
Babou é de certa forma um estorvo para a vida da filha – mas Copacabana nunca a mostra como uma megera e sim, uma pessoa de bom coração que só dá mancada, mesmo quando tenta fazer o bem. É justamente isso que acontece quando, mais tarde, a protagonista está trabalhando na Bélgica, como agente imobiliária, e hospeda num prédio vazio com apartamentos à venda, um jovem casal sem-teto.
 
Babou é uma pessoa quase indecifrável. Tem-se apenas pistas sobre ela. No filme, ela não tem passado, apenas presente, o que torna a composição de Isabelle ainda mais intrigante. Seu sonho é conhecer Copacabana. Adora músicas brasileiras – o que permite que a trilha do filme seja repleta de MPB, trazendo Astrud Gilberto, Jorge Ben e Chico Buarque.
 
O que há de mais perspicaz em Copacabana é permitir a todo tipo de espectador identificar-se com Babou, mesmo que ela não seja igual a nenhum deles – porque ao menos uma vez na vida, todo mundo já cruzou com alguém parecido. Babou é o tipo de pessoa capaz de fazer bobagens que atrapalham sua própria vida e, ainda assim, dar a volta por cima e, mesmo se não se sair bem, sobreviver às baixas com alguma classe.
 
Copacabana e O mágico compartilham mais em comum do que a nacionalidade. É possível traçar um paralelo entre os protagonistas dos dois filmes, que encontram a si mesmos apenas quando estão no exterior. Se Babou precisou ir até a Bélgica para colocar ordem em sua vida, o protagonista da animação de Sylvain Chomet (“As bicicletas de Belleville”) faz um tour pela Europa, incluindo a Escócia, onde sua vida começa a ter um pouco de alegria.
 
O personagem-título, Tatischeff, é um ilusionista decadente que, nos anos de 1950, se apresenta em teatros de variedades, para pouco público. A vida caminha sem graça até ele fazer amizade com uma jovem camareira. Por falarem línguas diferentes, há pouco diálogo entre eles – o que não atrapalha em nada a amizade.
 
O roteiro de O mágico é baseado num original de Jacques Tati (As férias do Sr Hulot), morto em 1982, e nunca filmado. Não por acaso, o nome do protagonista é o mesmo do de batismo do diretor (Tatischeff), assim como sua aparência. O humor ingênuo e lúdico é prova de que o filme não decepciona aos fãs dos dois cineastas, pois a animação segue o padrão de Chomet, repleto de refinamento e detalhes.
 
Se o ritmo parece um pouco lento àqueles acostumados com a histeria da animação contemporânea, os traços parecerão o mais puro retrô – e aí reside boa parte da beleza do filme. Esse visual tem muito a ver com a história dos personagens, sua melancolia, a forma como parecem ter aberto mão de seus sonhos apenas para seguir vivendo.
 
O mágico é um tributo a Tati e dedicado à filha dele, Sofie Tatischeff, que permitiu a produção do filme, mas morreu antes de vê-lo pronto. Por outro lado, uma reportagem publicada em janeiro passado no jornal inglês “The Guardian” revela que o roteiro serviu a Tati como uma espécie de expiação por ter abandonado sua filha mais velha, Helga Marie-Jeanne Schiel, que mora na Inglaterra. Ela e seus filhos acusam Chomet de mudar as intenções da história e assim salvar a reputação de Tati. De qualquer forma, “O mágico” é um tributo ao cinema francês, especialmente ao estilo de Tati, que percorria da ingenuidade à melancolia com lirismo e leveza.
 
COPACABANA
BELAS ARTES - SALA 2
Sessão: 1275 (Quarta)
03/11/2010 - 20:10
 
FAAP
Sessão: 1390 (Quinta)
04/11/2010 - 19:00
 
O MÁGICO
CINE LIVRARIA CULTURA 1
Sessão: 1252 (Quarta)
03/11/2010 - 22:40

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