34ª. Mostra Internacional de São Paulo

Documentários do último dia transitam entre o pessoal e público

Alysson Oliveira

Documentários do último dia transitam entre o pessoal e público
Neste último dia de programação normal da Mostra, três diretores levam para as telas experiências pessoais com resultados interessantes, caminhando numa linha tênue entre o público e o pessoal. Famoso e premiado produtor espanhol que tem em seu currículo filmes como O estranho caso de Angélica e Tio Boonmee, que pode recordar suas vidas passadas, Luiz Miñarro dirige o documentário Streaptease familiar, que começa como uma homenagem aos pais e se desenrola num belo e delicado retrato de uma geração espanhola que começa a se extinguir.
 
A força motriz do filme é a mãe do diretor, Maria Luz Alberto Calvo. Mais do que uma força da natureza, esta senhora parece saída de uma ficção – talvez até almodovariana – com suas lembranças e histórias sobre a vida, o amor, os filhos, os tempos de guerra. As entrevistas são feitas durante sessões em que um jovem pintor faz um quadro do diretor e seus pais.
 
A mãe segura uma boneca em forma de bebê; o pai, Francesc Miñarro Bermejo, um pequeno avião de brinquedo, que remete à época em que ele fez parte da Força Aérea Espanhola. Maria Luz conta com lucidez e detalhes quando viveu a Guerra Civil Espanhola, o dia em que perdeu a fé em Deus e a educação repressora que recebeu e à qual ela atribui dificuldades em seu amadurecimento e a descoberta do prazer. Miñarro Bermejo, por outro lado, tem uma memória fragmentada. Suas lembranças, às vezes desconexas, são complementadas por sua mulher.
 
Aos poucos, forma-se um retrato real (a pintura) e cinematográfico (o filme) destes pais. A própria Maria Luz diz que gostaria de ter um filme dos pais dela para matar as saudades. Mas, em Streaptease familiar, Miñarro vai além de guardar imagens dos pais. O filme é profundamente interessado na intersecção entre memória e política.
 
O mexicano Um dia a menos, de Daniela Ludlow, tem em seu objeto de estudo também um casal idoso e a relação deles com memórias e a vida presente. No entanto, desenrola-se de forma diferente do Streaptease familiar. Dom Eme e Dona Carmen vivem na solidão na Cidade do México, com poucas visitas dos filhos. Com a idade avançada, contam os dias até o próximo feriado, quando a casa estará cheia novamente.
 
Caminhando na mesma pegada de Streaptease familiar, está a inglesa Amy Hardie, com seu curioso A fronteira do sonho – que, como o espanhol, também é rodado em preto e branco. Especializada em filmes documentais de ciência – produções praticamente institucionais –, a diretora abre a sua vida, família e dúvidas nesse trabalho.
 
O longa é uma investigação sobre os sonhos, como se formam, o que representam, o que significam, entre outras coisas. Uma vez ela sonhou que seu cavalo havia morrido. E logo ele morre. Tempos depois seu marido sonha que ela morrerá aos 48 anos. E Amy acompanha a sua vida do dia em que completa essa idade até o aniversário seguinte.
 
Entre trabalhar, cuidar da família e da casa, a cineasta divaga sobre a possibilidade premonitória dos sonhos. Seriam meros acasos ou há uma vidência do futuro? Conversando com médicos, cientistas e místicos, ela não demonstra intenção de esgotar o assunto, mas sim de investigar, tendo como mola propulsora o seu medo de a profecia se cumprir. Para aumentar a sua insegurança, ela contrai uma misteriosa doença no pulmão que exames não conseguem definir.
 
É interessante a cruzada de Amy que, nessa jornada, expõe bastante sua família. A conclusão do filme, no entanto, parece um pouco rápida, e conta com a participação de uma brasileira, que introduz a diretora a rituais xamânicos.
 
STREAPTEASE FAMILIAR
MIS - MUSEU DA IMAGEM E DO SOM
04/11/2010 – 10:30 (quinta)
 
UM DIA A MENOS
CINE TAM - SALA 4
Sessão: 1380 (Quinta)
04/11/2010 - 19:00 -
 
A FRONTEIRA DO SONHO
UNIBANCO ARTEPLEX 4
Sessão: 1328 (Quinta)
04/11/2010 - 21:20

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