34ª. Mostra Internacional de São Paulo

Memórias da repressão no Chile e na China

Neusa Barbosa

Memórias da repressão no Chile e na China

Entre os melhores filmes da programação da 34ª. Mostra estão diversos documentários. Três deles passam neste domingo, sendo que um deles – Nostalgia da Luz, de Patricio Guzmán –, tem sua última sessão neste domingo (31).
Conhecido por seus trabalhos engajados, como Salvador Allende (Cannes 2004), O Caso Pinochet (2000) e sobretudo pela magistral fusão de pesquisa e memórias pessoais de A Batalha do Chile (1973-1979), neste novo filme Guzmán oxigena a visão da política, tornando-a ampla o bastante para traçar ligações com a ciência.

Foi no deserto de Atacama que política, arqueologia e astronomia se encontraram. Ali onde em 1962 astrônomos europeus e norte-americanos instalaram um observatório, pelas excepcionais condições de observação das estrelas, e arqueólogos pesquisam os vários povos que ali viveram, o governo do ditador Augusto Pinochet executou e ocultou os corpos de centenas de prisioneiros políticos.
 
Estes altos e baixos da história chilena são explorados por este documentário fascinante, impregnado da memória pessoal de Guzmán – sempre se colocando como uma testemunha, mas nunca descuidando nem da pesquisa, nem da procura de personagens sólidos, não raro, encantadores. Como o arqueólogo Lautaro, cujo conhecimento do deserto contribuiu para o encontro de ossadas de desaparecidos; o astrônomo Gaspar e sua visão cósmica do mundo; o arquiteto Miguel – ex-preso político cujos precisos desenhos, feitos de memória, expuseram o horror de campos de concentração da ditadura; e Victoria e Violeta, a incansável dupla de velhas mulheres que bate a terra árida de Atacama há 28 anos, numa procura heroica pelos despojos de seus parentes.
 
 A sintonia entre todos os relatos e aspectos dessa realidade complexa do Chile torna o filme de Guzmán um programa desses que merece o nome de obrigatório – ainda mais que ainda não tem distribuidor no Brasil.
 
Pais e filhos
Também abordando uma história da ditadura chilena, o documentário Mi Vida com Carlos, de Germán Berger, recebeu diversos prêmios internacionais e também os troféus de melhor filme latino e melhor fotografia no Festival de Gramado 2010.
 
Num ritmo bastante initmista, a obra recupera, sob o ponto de vista de um filho (o próprio diretor) a história de um jovem advogado e militante esquerdista, Carlos Berger. Ele foi assassinado aos 30 anos pelas chamadas Caravanas da Morte do início da ditadura de Augusto Pinochet, em outubro de 1973. Seu filho, Germán, tinha apenas um ano de idade.
 
Apoiando-se em materiais de arquivo da própria família, como filmes super-8 de férias, e depoimentos de seus tios e sua mãe, Carmem Hertz, o diretor traça uma comovente história pessoal, que termina sendo emblemática sobre o momento político vivido pelo Chile na época.
 
Apesar de já ter sido exibido em diversos países, como EUA, Espanha e França, o filme não foi ainda distribuído nos cinemas chilenos. “Não tivemos ainda ofertas para cinema, apenas para TV. Estamos estudando alternativas, como exibição em escolas ou através do DVD”, informou o diretor, em Gramado.
 
Visões da China atual
Um dos nomes mais respeitados do novo cinema chinês, conhecido por trabalhos como Em busca da vida, Jia Zhang-ke retoma um estilo que mistura o documentário com toques ficcionais (como a presença de sua musa, a atriz Zhao Tao), refletindo sobre a história da China através de um retrato da cidade de Xangai – voltando-se agora mais para o passado do que para o presente, focalizado em seus filmes anteriores.
 
Memórias dolorosas da Revolução Cultural emergem dos depoimentos de alguns dos 18 personagens escolhidos pelo diretor para relatar biografias que passam em revista momentos dramáticos da história chinesa. Algumas dessas histórias gravam-se na memória, como a filha de um prisioneiro executado, pai que ela não conheceu a não ser pelas fotografias tiradas pouco antes da execução. Há depoimentos surpreendentes, como a velha senhora de uma família de gângsteres, contando como uma casamenteira arranjou o matrimônio de seus pais.
 
Enfim, são pequenas surpresas e grandes emoções emergindo de relatos às vezes corriqueiros, na aparência. Jia, às vezes, lembra Eduardo Coutinho . Quando um de seus personagens canta uma música em inglês, é puro “Edifício Master”.
 
 A cidade de Xangai é outro personagem onipresente do documentário, com uma sucessão das paisagens que se modificam, no ritmo de gigantesco canteiro de obras que parece espalhar-se por seus quatro cantos, sobrepondo-se a imagens de arquivo muito bem escolhidas.
 
MEMÓRIAS DE XANGAI - I WISH I KNEW
(I WISH I KNEW), de Jia Zhang Ke (125').
CHINA. Falado em mandarim. Legendas em português.
Indicado para: 12 anos.
UNIBANCO ARTEPLEX 1
Sessão: 929 (Domingo)
31/10/2010 - 18:10
 
CINEMARK SHOPPING ELDORADO sala 7      
Sessão: 1099 (Segunda)
01/11/2010 - 21:00
 
RESERVA CULTURAL 1                     
Sessão: 1165 (Terça)
02/11/2010 - 16:30
 
NOSTALGIA DA LUZ
(NOSTALGIA DE LA LUZ), de Patricio Guzman (90').
FRANÇA, ALEMANHA, CHILE.
Falado em espanhol. Legendas eletrônicas em português.
Indicado para: 12 anos.
BELAS ARTES - SALA 2                   
Sessão: 997 (Domingo)
31/10/2010 - 16:10
 
MI VIDA CON CARLOS
(MI VIDA CON CARLOS), de Germán Berger (83').
ESPANHA. Falado em espanhol. Legendas em inglês.
Legendas eletrônicas em português. Indicado para: 14 anos.
 
CINE TAM - SALA 4                      
Sessão: 1007 (Domingo)
31/10/2010 - 21:00
 
CINE LIVRARIA CULTURA 1                
Sessão: 1067 (Segunda)
01/11/2010 - 14:00
 
ESPAÇO UNIBANCO POMPÉIA 1              
Sessão: 1383 (Quinta)
04/11/2010 - 16:00

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