34ª. Mostra Internacional de São Paulo

“Mistérios de Lisboa” e “Carlos” são longos, mas imperdíveis

Alysson Oliveira

Não se deixe assustar pela duração. Os filmes Mistérios de Lisboa (foto) e Carlos têm respectivamente 4h26 e 5h30. E valem cada um de seus preciosos minutos. Não é  apenas a extensão que dá o aspecto monumental aos dois filmes. Ambos foram idealizados como minisséries para canais de televisão europeus, mas acabaram chegando também aos cinemas. Os dois diretores, Raúl Ruiz e Olivier Assayas, respectivamente, deram ares épicos a histórias que teriam por natureza cunho intimista. Uma razão a mais para se esforçar para assisti-los é que, apesar de sua qualidade, ainda não encontraram distribuidores, sendo pouco provável que sejam lançados no Brasil.

O primeiro a passar na 34ª Mostra é Mistérios de Lisboa, que tem sua última sessão no domingo (31). Baseado num romance homônimo do escritor português Camilo Castelo Branco, o roteiro é assinado por Carlos Saboga. Ruiz, um chileno radicado na França, é um dos cineastas mais prolíficos da atualidade. Em sua filmografia, há adaptações literárias ousadas como O Tempo Redescoberto, inspirado em Marcel Proust.
 
Mistérios de Lisboa centra-se na figura de Pedro da Silva (interpretado por João Arrais, quando criança). Órfão criado por um padre, ele desconhece completamente a identidade de seus pais até que sua mãe (Maria João Bastos) entra em sua vida. A história do garoto é como uma delicada teia repleta de meandros e flashbacks, que conduzem a narrativa.
 
Quando, no começo da segunda parte, um religioso diz “Eu tenho uma história para te contar e ela é longa”, ele não está sozinho. Todos os personagens têm longas histórias para contar e é isso que agrega camadas e mais camadas ao filme. Ruiz e Saboga, no entanto, são engenhosos o bastante para estabelecer um fio condutor, na figura do Padre Dinis (Adriano Luz).
 
Romances proibidos, traições, mortes, promessas, guerra e lágrimas não faltam na trama, cujo quê de folhetinesco é superado pela direção e o visual, com cenários e figurinos de uma beleza que nunca é pomposa.
 
A primeira cena é um teatro ao ar livre. E,durante vários momentos de Mistérios de Lisboa, Pedro brinca com um teatrinho de papelão encenando passagens que são contadas. Pode estar aí uma pista para desvendar o filme. Ruiz parece dizer que talvez a vida não passe de uma encenação, em que as pessoas são protagonistas da própria existência, mas coadjuvantes nas dos outros.
 
Trama internacional
 
Há mais pontos em comum entre Carlos e Mistérios de Lisboa do que possa parecer num primeiro momento. Fora a duração e a concepção, as duas obras lidam com a questão da identidade pessoal. Tanto Pedro, quanto Carlos, o Chacal (interpretado pelo venezuelano Édgar Ramirez), parecem não saber ao certo quem são. Ambos os filmes investigam o que há por trás deles e como chegaram onde estão, embora nem sempre tenham ciência do caminho que percorreram.
 
Illich Ramíres Sanches ganhou seu apelido, Carlos, o Chacal, nos anos de 1970, quando se tornou um dos terroristas mais procurados do mundo. Nascido em 1949, filho de um advogado venezuelano marxista, fez treinamento na União Soviética, e mais tarde se juntou à Frente Popular para a Libertação da Palestina, que marca o começo de sua carreira.
 
Usando uma boina e costeletas, Carlos parece gêmeo de Che Guevara. Aliás, é possível estabelecer similaridades entre o épico de Assayas e o díptico de Steven Soderbergh sobre o revolucionário argentino, Che – apresentado na Mostra há dois anos. Nenhum dos dois diretores está interessado em desmontar completamente a mitologia que cerca seus personagens. A certa altura, quando Carlos começa a ganhar fama, ele entra em cena mais parecendo uma estrela de rock do que um terrorista procurado no mundo todo.
 
Conhecido por seus filmes intimistas, como Horas de verão e Clean, Assayas combina a grandiosidade dos épicos com a profundidade dos retratos pessoais, ao olhar a fundo Carlos, sem buscar explicações ou razões para suas escolhas, mas retratando sua ascensão e sua queda. Obviamente, de forma sutil, o diretor estabelece paralelos entre o passado e o presente. Não apenas com Che, mas também como o alemão O grupo Baader Meinhof, Carlos retrata o idealismo – que pode se transformar em violência. Esses filmes remetem diretamente ao mundo pós-11 de setembro, no qual o encontro entre idealismo e violência gerou resultados trágicos.
 
MISTÉRIOS DE LISBOA
ESPAÇO UNIBANCO POMPÉIA 1
Sessão: 1008 (Domingo) - 31/10/2010 - 14:00
 
CARLOS
UNIBANCO ARTEPLEX 2
Sessão: 825 (Sábado)
30/10/2010 - 20:00
 
CINEMATECA - SALA BNDES
Sessão: 1144 (Terça)
02/11/2010 - 16:30

Deixe seu comentário:

Imagem de segurança